A frase é forte, direta e eleitoralmente eficiente: “quem defende ditadura não deveria ser candidato”. Ao pronunciá-la, Geraldo Alckmin tenta ocupar o lugar confortável de guardião da democracia. O problema é que, fora do palanque, o próprio governo ao qual pertence parece tratar esse princípio como uma peça de retórica — maleável, adaptável e, sobretudo, seletiva.
No Brasil, a régua é rígida. No mundo, ela entorta.
Democracia para dentro, relativismo para fora
Ao lado de Luiz Inácio Lula da Silva, Alckmin sustenta a narrativa de que a eleição de 2026 será um plebiscito entre democracia e autoritarismo. A construção é politicamente inteligente — mas intelectualmente frágil.
Isso porque o mesmo governo que endurece o discurso contra adversários internos mantém relações cordiais, quando não simpáticas, com regimes e lideranças que pouco têm de democráticos. Entre eles:
- Nicolás Maduro, cujo governo é alvo recorrente de denúncias de fraude eleitoral e repressão
- Miguel Díaz-Canel, herdeiro direto de um regime de partido único
- Xi Jinping, chefe de um Estado que não tolera oposição política
- Gustavo Petro, cuja retórica regional frequentemente converge com a complacência em relação ao regime venezuelano
Aqui, o discurso muda de tom: sai a indignação moral, entra o pragmatismo diplomático. Ou, para os críticos, algo mais próximo de conveniência ideológica.
O silêncio eloquente sobre autoritarismos “amigos”
Não se trata de exigir rompimento de relações diplomáticas — isso seria ingênuo. O ponto é outro: a ausência de coerência.
Quando o governo brasileiro:
- evita críticas diretas a regimes autoritários alinhados ideologicamente
- relativiza violações de direitos humanos em nome da “soberania”
- e adota uma linguagem branda diante de crises institucionais externas
ele transmite uma mensagem clara: há ditaduras mais condenáveis que outras.
E, curiosamente, essas “outras” tendem a ser justamente as que não fazem parte do mesmo campo político.
Oriente Médio e o terreno ainda mais sensível
A contradição se intensifica quando o debate avança para o cenário do Oriente Médio.
O governo brasileiro tem sido criticado por declarações vistas como ambíguas — ou excessivamente lenientes — em relação a grupos classificados como terroristas por diversas nações ocidentais. Ao mesmo tempo, mantém uma postura firme contra a ampliação do conceito de terrorismo para incluir organizações criminosas, como facções do narcotráfico.
Essa posição, embora juridicamente defensável sob certos argumentos, gera desconforto político. Afinal:
- por que a rigidez conceitual em um caso
- e a flexibilidade retórica em outro?
A crítica aqui não é trivial. Ela toca em um ponto sensível da segurança pública brasileira, onde facções criminosas exercem poder territorial, político e econômico — muitas vezes com características que, para parte da sociedade, se aproximam de estruturas terroristas.
A retórica que não resiste ao espelho
Ao dizer que “quem defende ditadura não deveria ser candidato”, Alckmin tenta estabelecer uma linha moral clara. Mas essa linha se apaga quando confrontada com a prática.
Porque, no fim das contas, o problema não está apenas no que se diz — mas no que se tolera, no que se relativiza e, principalmente, no que se ignora.
Se a defesa da democracia é um valor inegociável, ela precisa ser:
- universal, não circunstancial
- coerente, não oportunista
- consistente, não seletiva
Caso contrário, deixa de ser princípio e passa a ser instrumento.
2026: o risco da narrativa que se volta contra o autor
A estratégia de polarizar o debate entre democracia e autoritarismo pode funcionar — mas carrega um risco evidente: o de expor as próprias contradições.
Em um cenário de informação ampliada e eleitor mais crítico, o discurso moralizante tende a ser cobrado com rigor. E, nesse contexto, cada gesto diplomático, cada declaração ambígua e cada silêncio estratégico passam a ter peso político.
Conclusão: entre o discurso e o cinismo
A fala de Geraldo Alckmin não está errada — está incompleta.
Porque a verdadeira questão não é apenas quem defende ditadura para dentro.
É quem tolera, relativiza ou silencia diante dela quando convém.
E, nesse ponto, o governo brasileiro parece operar não sob o signo da coerência democrática, mas sob algo bem mais antigo na política: o cinismo estratégico.
No fim, a pergunta que permanece não é sobre adversários —
mas sobre credibilidade.
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