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Das ruas ao Direito: Vinícius Leôncio, o homem que enfrentou a fome, desvendou os tributos e quer dar voz oficial a Minas Gerais

Por Leandro Quirino | Entrevista especial para o Podcast Ordem e Voz da OCIM

Poucas trajetórias no Brasil condensam, com tamanha intensidade, a capacidade humana de resistir, reinventar-se e devolver à sociedade aquilo que a própria vida tentou lhe negar. A história de Vinícius Leôncio, hoje reconhecido como um dos mais respeitados advogados tributaristas do país, começa longe dos gabinetes refrigerados, dos códigos comentados e dos tribunais superiores. Começa na rua. Literalmente.

Natural de Iguatama, no Centro-Oeste de Minas Gerais — “terra das águas curvas”, como ensina o tupi-guarani — Vinícius chegou a Belo Horizonte aos 16 anos com um projeto improvável: tornar-se advogado. Não tinha dinheiro, não tinha parentes na capital, não tinha rede de apoio. Tinha apenas uma convicção silenciosa e obstinada.

“Eu já era advogado com 16 anos. Pelo menos na cabeça.”

Essa frase, repetida sem vaidade, resume o fio invisível que o manteve de pé nos momentos em que tudo conspirava para o fracasso.


A rua como escola

Entre 1976 e 1978, Vinícius viveu quase dois anos em situação de rua em Belo Horizonte. Dormia onde era possível, lavava pratos em restaurantes, vendia raízes medicinais na Praça Sete, recolhia restos de lanchonetes para sobreviver. A fome era cotidiana — e nunca romantizada.

“A fome dói. Mas a gente se acostuma com ela.”

Foi nesse período que conheceu Ezequiel, um maestro e pianista erudito que também vivia nas ruas. Juntos, recolhiam livros descartados no lixo da cidade e estudavam filosofia. Nietzsche, Schopenhauer, Platão e Aristóteles dividiam espaço com o concreto frio e a precariedade absoluta.

“Não existe livro velho. Livro é sempre novo para quem nunca leu.”

A rua, para Vinícius, não foi um fim de linha. Foi uma escola brutal, mas decisiva. Ali ele aprendeu que valor não nasce da abundância, mas do tempo, do esforço e da resistência.

“Eu sabia que sairia da rua. Aquilo era uma condição adversa de momento, não o meu destino.”

Serra Pelada: o limite da matéria

Antes de entrar definitivamente no Direito, Vinícius ainda viveria outra experiência extrema: Serra Pelada, no Pará. Passou cerca de um ano e meio no maior símbolo da febre do ouro brasileira, um ambiente onde a violência era regra e a vida humana tinha preço baixo.

“O homem briga por três coisas: barra de ouro, barra de cola e barra de saia. Em Serra Pelada tinha as três.”

O garimpo consolidou uma certeza: riqueza sem estrutura, sem ética e sem propósito não o atraía. Era preciso voltar. Voltar ao plano inicial.


Do atraso escolar ao Direito

Sem formação regular, Vinícius concluiu o ensino fundamental e médio por meio de supletivo, já adulto. Ingressou na faculdade de Direito aos 25 anos, quase uma década depois de chegar a Belo Horizonte. O diploma, contudo, nunca foi visto como ponto final.

“Formar em Direito é fácil. Difícil é saber o que fazer depois.”

Ele escolheu o Direito Tributário, talvez o ramo mais complexo e instável do ordenamento jurídico brasileiro. Um campo marcado pelo excesso de normas, pela insegurança jurídica e pela incompreensão generalizada. Foi justamente nesse caos que encontrou sua missão.


O maior livro do mundo: um retrato do caos tributário

Incomodado com a fragmentação normativa, Vinícius realizou uma façanha inédita: consolidou toda a legislação tributária brasileira — federal, estadual e municipal — em um único compêndio físico.

Os números impressionam:

  • 7,5 toneladas
  • 42 mil páginas
  • Formato de 2,20 m por 1,40 m
  • Legislação da União, dos 27 estados e de cerca de 6 mil municípios
“O Brasil edita, em média, 35 normas tributárias por dia. Quem diz que entende tudo é gênio ou mentiroso.”

A obra, hoje exposta no Hotel Fazenda Paciência, em Santana dos Montes, é mais do que um recorde físico. É uma denúncia silenciosa.

“Se precisa do maior livro do mundo para explicar um sistema, o sistema está errado.”

A certificação oficial do Guinness Book está prevista para 2026.


Tempo, tear e valor

Durante a entrevista, Vinícius aponta para um tear antigo, símbolo de um tempo em que tudo exigia espera.

“Um metro de pano por dia. E olhe lá. Quatro anos para fazer um pano. Três anos e meio de peleja para fazer uma calça.”

Para ele, esse processo artesanal explica o que se perdeu na sociedade contemporânea — inclusive no Direito.

“Hoje tudo é imediato. A gente esqueceu que valor é sinônimo de tempo, esforço e processo.”

Minas Gerais: um estado sem hino

Talvez o ponto mais contundente da conversa seja a ausência de um hino oficial para Minas Gerais.

“Minas é o único estado do Brasil que não tem hino.”

A música “Ô Minas Gerais”, segundo Vinícius, é apenas uma adaptação de uma canção veneziana do início do século XX. Não possui status jurídico nem identidade histórica própria.

“Desde 1910 isso está previsto em constituições. A Constituição Mineira de 1989 é clara: a Assembleia Legislativa deveria promover um concurso para criar o hino, com um único tema possível — a Inconfidência Mineira.”

Mais de trinta anos depois, nada foi feito.

“Somos cruéis com nossos heróis. Nenhuma nação sobrevive sem símbolos.”

Membro ativo da Ordem dos Cavaleiros da Inconfidência Mineira (OCIM), Vinícius defende que a entidade lidere um movimento formal para cobrar o cumprimento da Constituição.

“Minas deve isso a si mesma.”

Tiradentes: cérebro, não mártir passivo

A defesa da identidade mineira passa, inevitavelmente, pela figura de Tiradentes. Vinícius rejeita a leitura que o reduz a um personagem ingênuo da Inconfidência.

“Eu sou tiradentista por natureza.”

Segundo ele, Tiradentes foi o grande estrategista do movimento, com projetos de mineração, engenharia hidráulica e uma visão institucional avançada, como a separação entre capital política e administrativa para proteger a academia do poder político.

Outro marco foi a reconstrução técnica do rosto de Tiradentes, apresentada em 2024, rompendo com a imagem religiosa criada décadas após sua morte.

“Tiradentes era militar. Jamais teria barba e cabelo longos daquele jeito.”

Um homem moldado pela falta

A história de Vinícius Leôncio não é uma fábula de superação fácil. É uma narrativa áspera, sem atalhos, onde cada conquista foi precedida por escassez, espera e silêncio. Talvez por isso ele tenha uma relação tão rigorosa com o tempo.

“Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da vida.”

Hoje, advogado consagrado, autor do maior livro do mundo e defensor incansável da identidade mineira, Vinícius carrega a marca de quem conheceu o fundo — e escolheu subir sem apagar as pegadas.

“As coisas não nos pertencem. Somos nós que pertencemos a elas. A única coisa que ninguém me tira é o dia e a noite.”

Entre a rua e os tribunais, entre a fome e a Constituição, Vinícius Leôncio construiu mais do que uma carreira. Construiu sentido. E agora luta para que Minas Gerais também tenha o seu — cantado em versos, memória e identidade.

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