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Não precisam pedir perdão: as lições de Isabel Veloso

“Uma mamãe vivendo em cuidados paliativos e contando histórias ❤️|

| “Apesar da dor, gratidão.”” Assim Isabel Veloso se descrevia em seu Instagram, aos 19 anos, com mais de 3 milhões de seguidores (chegou a ser suspenso, como o meu — até hoje não sei o porquê, estou recomeçando, fecha parênteses). Isabel nos deixou, de repente (que sempre é de repente) no dia 10 de janeiro de 2025, logo após seu filho Arthur completar um ano de vida. Ficou o marido Lucas Borba, ficou muita gente que a amava. Foram complicações do transplante de medula, foi aquela doença terrível, voraz, incansável, o câncer, que devora o corpo por dentro e gera preconceito ao redor.

Agora, chovem homenagens a Isabel por aí, sensibilização, lamentações, muitos finalmente enxergaram sua história. Quando entre nós, a menina que lutava foi vítima da crueldade do julgamento alheio, e pior, da insensibilidade ante à dor, e vítima da inveja, com certeza, que quem brilha intensamente incomoda as trevas. Como Isabel Veloso lutou para viver! E nos deixou lições — para não esquecer.

A MENINA QUE LUTAVA E A “ NECROFILIA” BRASILEIRA

Isa lutava desde os 15 anos de idade contra um linfoma agressivo; aos 17, declararam que não tinha mais jeito, os cuidados seriam apenas paliativos até o fim. “Apesar da dor, gratidão”, dizia ela, cancelada e atacada por todos os lados: golpista, exagerada, exibicionista, mentirosa, “parece muito bem para estar tão doente”. Teve de mostrar laudos, provar. Que coisa horrível de ter de se fazer. Penso se estão felizes os que duvidaram da sua dor. Ou satisfeitos. Ou perplexos.

Como a feriram, ela que já estava machucada em suas células cancerosas. A natureza humana, e muito do que tem sido a cultura do povo brasileiro, praticou o que a escritora Lygia Fagundes Telles chamou, em uma entrevista na TV, de “necrofilia”: louva-se o morto, já que ele não compete mais. Infelizmente, conforme a própria Lygia recitou, em memória do poeta Tomás Antônio Gonzaga: “As glórias que vêm tarde, já vêm frias”. Ainda mencionou o exemplo de sua amiga Clarice Lispector, minha grande diva: enquanto viva, poucos a notavam, declarou a escritora Lygia. Hoje, já não mais entre nós fisicamente, Clarice (Chaya, nascida na Ucrânia, judia e fugitiva do antissemitismo, como ela mesma dizia) é um memorial imortal à Literatura Mundial.

Mas eu falava de Isabel Veloso (e continuo falando de grandes mulheres). Isa foi uma menina simples, embora tenha se tornado influencer e famosa, que lutou até o fim e com enorme cansaço, sem perder o sorriso. É claro que ela nos deixou lições de vida.

LIÇÕES DE VIDA DE UMA MENINA SÁBIA

Primeiro: valorizemos enquanto temos por perto. É meio que um clichê, mas não é tão fácil de se cumprir. Nenhuma relação é perfeita, há cicatrizes que sempre ficarão, e feridas que nem mesmo vão cicatrizar, há toda a complexidade de cada ser humano. Mesmo assim, continuemos amando quem nos ama. De repente a gente pode perder tudo o que tem, inclusive a vida; assim como podemos dar um brusco adeus àqueles que moram no nosso coração. A Vida faz dessas, sorrateira, toda entendida em milênios incontáveis de existência capciosa. Então, dar bom dia a cada dia, boa noite, tudo bem?, tomar um café com alguém especial, abraçar, mostrar, ser. Não com desespero e a loucura do medo da Morte inevitável, cedo ou tarde nosso destino: com amor, mesmo.

Em segundo lugar, Isabel me lembra gratidão. Eu sou uma que costumava ter certa resistência a essa palavra, “gratidão”, que às vezes parece ser utilizada de maneira desavisada, descuidada, banal até. Um mantra repetido sobre o qual não se refletiu, um costume, um “oi”. Mas ser grato tem de ser vivido. A gratidão não evita a dor, nem a revolta ou o temor. A gratidão é um bom coração que sabe o valor de poder lutar e amar.

Aos 17 anos, em entrevista ao Vilela do podcast Inteligência Ltda. — uma das poucas pessoas que realmente a acolheram na mídia —, Isabel Veloso disse que nunca reclamou desde que recebeu o diagnóstico. E que sempre aceitou que sua passagem por aqui poderia ser curta, porque era seu destino. Nem esperava viver mais dois anos. E agradeceu pelo que havia vivido e por ainda poder respirar. Ela ainda podia.  

Mais uma coisa: lutar, seguir lutando, acreditar que o sorriso pode voltar, que há esperança. Ser forte — aprender a ser.

Por fim, Isa nos deixou um conselho belíssimo:  “Respire o que eu não pude respirar, viva o que eu não pude viver, ame o que eu não pude amar, cuide do seu filho como eu não vou poder”, disse uma garotinha que tão cedo enfrentava a Morte bater à porta. E ela disse sorrindo, eu me lembro, com calma, em paz. Não sem dor, nunca nos esqueçamos disso.

Isa acreditava em Deus, mas sabia que Ele tinha o direito de querer algo que ela não queria para sua vida, tipo o fim precoce dela. A maior dor de Isa, disse a delicada menina, não seria o câncer — mas deixar quem amava. E então ela nos deixou.

LÁ NO CÉU  

Um dia, todos nós vamos embora. Uns muito, muito cedo, e por coisas tão banais e imprevisíveis. Outros passam dos 100 anos, e ninguém esperava. Deus, o destino, não são enigmas para compreendermos em todas as suas dimensões. O que importa é que, no fim, a vida sempre vai rápido e o Tempo é imperador, tácito e por vezes cruel.

Então, em memória de Isabel Veloso e de sua família, e de todos os que, ainda viva ou só agora, reconhecem seu legado de bravura, linda menina por dentro e por fora; em memória dessa pessoa de tão curta trajetória terrena, mas tão admirável, embora triste também, em memória de Isa eu celebro o hoje. Inclusive celebro o agora. O céu está nublado, como se em luto. Mas meu coração, veja, está batendo. Eu estou respirando. Tenho vida. Quero viver, apesar da dor e da fraqueza, “viver apesar de” como disse minha Clarice..

Enquanto isso, lá no Céu tem festa — acredito, eu que não cheguei a ficar tão adulta para duvidar do óbvio. Isabel Veloso viveu com propósito e finalizou sua breve missão. E quem a “crucificou” não tem de pedir perdão a ela ou a ninguém. Tem é de repensar o significado e o valor da própria vida, e da compaixão, da resiliência, de como precisamos olhar a dor do outro e acolhê-la. Talvez muitos tenham de se perdoar, e para outros muitos ela continuará sendo uma falsária — não vemos o mundo como ele é, mas como somos e nos sentimos.

À menina que lutava, deixo meu “quem sabe até um dia”. E meus aplausos, esteja onde estiver.

É sabido que Deus sempre deu as batalhas mais difíceis aos seus melhores soldados, e os louros nem sempre vêm nesse plano. E, para quem acha que Ele não existe, também desejo paz de espírito, e que consigam ver a beleza da vida nas coisas simples, rotineiras, pouco notadas. E que se tornem seres humanos cada vez melhores, quer dizer, mais humanos.

NINGUÉM PRECISA PEDIR PERDÃO A ISABEL

Não, ninguém precisa pedir perdão a Isabel Veloso. Ela já os perdoou, tenho certeza.

Peçam perdão a si mesmos se, quem sabe, não têm dado valor à vida, e a quem amam (quem você ama sabe que você ama?), se têm passado tempo demais reclamando ou ofendendo os outros. Se não têm, ao menos, tentado tornar esse lugar caótico um pouco mais feliz, ou apenas habitável. Todos nós podemos.

Há pessoas cuja missão na Terra é belíssima, mas brevíssima. E o que deixamos ao voltar ao pó de onde viemos é aquilo que plantamos no coração daqueles que tocamos. Obrigada, Isabel Veloso, Isa, a menina que lutava, e que foi veloz embora. Suas lições não precisam morrer. Flores para você…

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