É uma era de paradoxos brutais. Se as notificações brilham em telas de alta definição, cada vez mais onipresentes e realistas, os olhos que as observam parecem cada vez mais opacos. Há uma patologia silenciosa, não detectável em exames de sangue ou imagem, que corrói o tecido social de dentro para fora: a falta de propósito. O que temos hoje é uma massa crescente de entes perdidos, flutuando em um mar-aberto de informações sem profundidade e infindáveis, combustíveis para inveja, frustração, agressividade e, acima de tudo, alienação.
A hostilidade geral, é claro, não está restrita às redes sociais: pode-se vislumbrá-la em todo lugar offline. Não é apenas falta de educação, paciência e alegria genuína: é o sintoma de almas que não encontram lugar no mundo. Sempre houve, eu sei. A natureza humana tampouco já foi compreensiva, em qualquer época. Mas presumo que a coisa se avultou.
A DISSOLUÇÃO DOS PILARES
Para entender como chegamos a esta condição pandêmica de vazio, frustração ou soberba (um triste disfarce para a frustração), pouca resiliência e niilismo generalizado, é preciso encarar a herança da Pós-Modernidade. Assistimos ao “amolecimento” gradual das instituições que outrora conferiam estabilidade e sentido à existência humana. “Mas as pessoas não eram livres e havia muitas injustiças”, você pode pensar. Bem, talvez houvesse muito menos casos de depressão, ansiedade, suicídio e burnout.
A Educação, por exemplo, está em xeque, notadamente no Brasil: instituições de ensino, que deveriam ser templos de saber e formação de caráter, tornaram-se frequentemente meras engrenagens burocráticas ou campos de batalha ideológico-político. Escorre pelas mãos de muitos professores e alunos a função de guiar o indivíduo em direção à si mesmo e a seu lugar no mundo, que o indivíduo deve encontrar em seu âmago.
Mais: o silêncio do sagrado é retumbante. A religião, que oferecia uma bússola moral e um senso de comunidade, vem dando lugar a um vácuo vorazmente ocupado pelo ateísmo ou niilismo. Olhe para a História: nosso normal sempre foi buscar a transcendência, e não se limitar ao material. Mas há tantas coisas materiais com que viver (se distrair) hoje… Muitos se resumem à gaiola da materialidade biológica e de nossos ainda parcos conhecimentos científicos.
Os porquês da vida se dissolvem no consumo e na indiferença da racionalidade ou do excesso de informações a que ficamos expostos quase que permanentemente. Quase sempre nas telas.
Por outro lado, as famílias e os relacionamentos têm se tornado cada vez mais fluidos, assim como os gêneros humanos. Não estamos propriamente criticando esses fenômenos, mas são facas afiadas de vários gumes. O que acontece é que as estruturas familiares tornaram-se líquidas e muito instáveis, se igualmente maus libertárias.
Estaremos remando muito além de nossos portos-seguros, se é que já tivemos algum? De nós mesmos? De nossa alma?
O cenário de abandono emocional, espiritual e metafísico é límpido. Alguns grupos sociais sofrem mais, como no caso das mães solo: muitas se veem sozinhas na criação de filhos, não raro são portadores de deficiência, e sobressai o peso da omissão social e paterna. Essas omissões escancaram a falta de solidariedade e de propósito coletivo.
O PARADOXO DO “VAZIO CHEIO DEMAIS”
Especialmente no Ocidente, estamos no auge da evolução tecnológica e da sofisticação dos Direitos Humanos. Teoricamente, nunca tivemos tantos recursos para sermos felizes. Teoricamente. Algo essencial parece estar se esvaindo, se exaurindo, fraquejando. A tecnologia deveria nos conectar, e frequentemente acaba por nos isolar em bolhas de autossuficiência estéril.
No contexto do Brasil, mais uma vez: a situação é ainda mais dramática (país com mais casos de ansiedade no mundo conforme a OMS, e índice de suicídios alarmante). Aqui, somam-se falta de qualidade de vida, de educação, de serviços de saúde eficientes, a crise econômica, ambiental, democrática. É um processo de erosão do “Brasa” e de suas identidades.
No âmbito pessoal, sonhar é um ato de resistência. A sobrevivência imediata e distraidamente inócua engole planejamentos a longo prazo e questões existenciais. Urra por aí a ausência de perspectivas reais e a sensação de que nada vale a pena. Ou de que nada tem sentido.
É a pandemia do vazio “cheio demais”, em que o excesso paradoxalmente esvazia. É a crise de saúde pública da nossa alma. Sem um propósito — seja ele espiritual, familiar, intelectual ou social — a vida perde seu valor intrínseco. É apenas uma sucessão de dias, de fugas, de ovos, de nada nem aonde ir.
Recuperar o sentido da existência é muito mais que religião, naturalmente. Estamos falando de sensibilidade, e da necessidade espiritual da natureza humana. E Ciência não é inimiga, como na Idade Média ou até o iluminismo que reagiu aos desmandos da fé.
Reconstrução.
Todos nós precisamos repensar nossa vida de vez em quando, antes que ela passe rápido demais. Mas é mais que isso: precisamos, como sociedades e entes profundos, de fundamentos que nos permitam olhar para o presente e o futuro e ver algo além do nada. A vida é imprevisível, sim, e não podemos controlar tudo, todavia precisamos de um chão para lidar e de um céu para vicejar. Ou colidiremos, inevitavelmente, inevitavelmente, com nossas próprias sombras — gélidas, intocáveis, vazias.
Leia mais: A pandemia do vazio: ausência de propósito de vida mata aos poucosAcidente Assassinato Belo Horizonte Betim BR-040 BR-251 BR-262 BR-365 BR-381 Contagem Corpo de Bombeiros Crime Cruzeiro Divinópolis Governador Valadares Grande BH Ibirité Ipatinga Itabira João Monlevade Juiz de Fora Lula Minas Gerais Montes Claros Nova Lima Patos de Minas Polícia Civil Polícia Federal Polícia Militar Polícia Militar Rodoviária Polícia Rodoviária Federal Pouso Alegre Previsão do Tempo Ribeirão das Neves Sabará Samu Santa Luzia Sete Lagoas Triângulo Mineiro Tráfico Uberaba Uberlândia Vale do Rio Doce Vespasiano Zona da Mata mineira




