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Feminicídios disparam no Brasil

Leila Krüger

O Brasil encerrou 2025 com um crivo sanguinolento que nos envergonha: oficialmente, 1.568 mulheres foram assassinadas pelo simples fato de serem mulheres. Esse número é o maior nos últimos 10 anos, e representa um recorde histórico e um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Estamos enterrando quatro mulheres por dia, vítimas de uma violência que o Estado insiste em tratar como estatística, mas que é um sintoma de um cancro social antigo e desprezado. O que soa estranho, em um governo que propala governar para as minorias sociais como o atual.

Mais grave ainda é a invisibilidade trágica das mulheres com deficiência neste contexto aterrador. Se os números gerais chocam, paira uma densa camada de silêncio ainda mais perversa no nosso país, que é justamente a situação dessas cidadãs com deficiências física e/ou mental. Elas são sistematicamente ignoradas nos recortes de dados sobre feminicídio e agressões domésticas.

Falando em vulnerabilidade social: no “país das bananas” (e das facções do crime organizado), o feminicídio é potencializado pela dependência. Muitas vezes, o agressor é o próprio cuidador ou o companheiro/familiar de quem a mulher depende para atividades básicas, como higiene e alimentação. Isso cria uma “prisão perfeita”, mas sem síndrome de Estocolmo: elas anseiam por libertação, em sua maioria, e não por se manterem reféns de criminosos abusadores. Nesse cenário, a questão financeira assume um peso degradante contra muitas mulheres vítimas de agressões.

Por outro lado, há uma evidente dificuldade em realizar denúncias de feminicídio ou agressões a mulheres no Brasil: muitos canais de atendimento não possuem acessibilidade plena (como intérpretes de Libras ou interfaces adaptadas). Além disso, avulta-se o isolamento social: a deficiência é uma ferramenta de controle, impedindo a vítima de buscar ajuda externa. Proliferam-se o medo, a vergonha e a falta de confiança na imparcialidade e na justiça brasileiras.

E mais: há negligência de registros de mulheres deficientes, visto que, quando agredidas, as deficiências raramente são levadas em conta na avaliação da gravidade dos crimes. São mulheres, com e sem deficiência, desvanecidas nas políticas públicas de proteção.

POR QUE OS NÚMEROS DE FEMINICÍDIO E AGRESSÃO A MULHERES NÃO PARAM DE SUBIR NO BRASIL

É fato que houve certo endurecimento das leis em 2024 e 2025 — com penas para feminicídio chegando a 40 anos. Mas a punição geralmente ocorre depois que o corpo já esfriou, e muito depois de o crime poder ter sido evitado. O que fazer? Mudar, com urgência, a prevenção e a base cultural do Brasil. Crescem ideais misóginos e racistas (racismo racial e regional) em vários grupos sociais e políticos. Notadamente, em ambientes digitais que alimentam um ódio e preconceitos sistêmicos que as medidas protetivas, sozinhas, não conseguem barrar.

O Brasil hoje é um cemitério de mulheres injustiçadas.

Não basta aumentar penas, ou mesmo canais de atendimento a potenciais vítimas do feminicídio, ou vítimas de agressões. Mais que aprimorar o treinamento e a acessibilidade nos canais de denúncia, algumas medidas úteis seriam: monitoramento eletrônico mais rigoroso para rastrear agressores que descumprimento de medidas protetivas; fortalecimento das redes locais, como a expansão das Casas da Mulher Brasileira e ONGs de acolhimento que sejam centros de referência, em especial nas áreas rurais e periferias urbanas. Mais profundamente, mover as raízes rotas da educação e galvanizar mudanças culturais estruturais: um duro combate ao desfinanciamento de políticas de assistência social.

ONDE BUSCAR AJUDA?

Como dissemos, é perfeitamente normal — mas triste e preocupante — haver tanto receio e resistência em denunciar, principalmente quando a denúncia parte da própria mulher agredida ou de outra mulher sobre um feminicídio. “Como fica a reputação da minha família? Meu marido vai (eles vão) me matar. Ninguém pode saber disso. Não vai adiantar nada. Estou sendo ameaçada.”  

Dizem que o brasileiro não desiste nunca, quanto mais a brasileira, que convive tantas vezes com lares abandonados ou encarcerados pelos progenitores ou companheiros, ou até mesmo familiares misóginos. Então, essa é uma guerra em que não podemos desertar: nós, mulheres, homens, pessoas de todos os gêneros. O Poder Público.

Mais uma vez: temos um governo que prega a proteção de minorias sociais e assevera governar para o povo, e principalmente o povo pobre, que são as pessoas mais afetadas pela violência e pelo descaso estatal. Mas ele não condiz em nada com os números de violências doméstica, de feminicídios, de narcotráfico e da crise na segurança pública que disparam no Brasil. Sobre tudo isso, os hórridos tentáculos da impunidade endêmica de instâncias jurídicas, políticas e policiais.

Não esmoreça. Ajude-se e ajude quem você ama. Busque por justiça.

Onde denunciar? Se sentir situação de risco, em sua vida ou na de alguém que conheça, disque 180, para a Central de Atendimento à Mulher (orientação e denúncia 24 horas). No WhatsApp, procure o número (61) 9610-0180, um canal direto via mensagem. Ademais, você pode ligar 190 para casos de emergência e agressão imediata, chamando a Polícia Militar. E temos as Delegacias Especializadas (DEAM): procure a unidade mais próxima para registrar ocorrências e solicitar medidas protetivas de urgência.

A violência contra a mulher não é um problema apenas brasileiro, mas global. E, no nosso território, consiste em crime público e falha moral de nossa vilipendiada sociedade.

Lembre-se de que o silêncio é o melhor amigo do agressor, e, muitas vezes, o pior algoz das vítimas. Leis como Maria da Penha são apenas embriões de muitas ações necessárias para preservar as mulheres, historicamente reprimidas e emudecidas: falta muito para as políticas públicas nacionais minimamente se adaptarem e se tornarem aptas a proteger mulheres, com ou sem deficiência, em quaisquer circunstâncias de abusos físicos e emocionais. Se sempre haverá a violência, que sempre haja a punição, e o mais justa possível.

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