Talvez você já tenha ouvido em algum lugar o termo “racismo estrutural”. É um tipo de racismo enraizado na estrutura da sociedade e que fundamenta práticas, hábitos, falas e situações que promovem o preconceito racial, ainda que não haja intenção de cometer crime de racismo. O racismo estrutural advém de um processo histórico em que minorias sofrem exploração e opressão das classes dominantes. Esse racismo fundo e denso, às vezes muito sutil, chega a fazer parte das estruturas social, econômica, cultural, política e das relações institucionais de uma sociedade inteira. Vem ocorrendo muito no Brasil, país de grande variedade racial e cultural, nação construída sob as bases da imigração, da escravidão de negros africanos e da dominação física e psicológica sobre os indígenas que aqui viviam, por parte dos colonizadores e das elites políticas.
É fato: o racismo estrutural vem ganhando força no Brasil atual, que é tido por muitos como libertário, anti vários tipos de discriminação e ditaduras – o que na verdade é um discurso sem base prática. Os casos de ódio racial, por exemplo, aumentam desde nos estádios de futebol até nas redes sociais, escolas, faculdades e no campo profissional. E não falo apenas das vítimas afrodescendentes, as mais “marcadas” por crimes de racismo. Toda pessoa ou grupo que sofrer ataques raciais, seja por descendência, procedência ou aparência, é vítima de racismo. E este pode ser estrutural.
Por isso, para além do racismo contra afrodescendentes, há quem direcione seus ataques, às vezes velados, contra alemães (são todos “filhos de Hitler”), italianos (“racistas”), índios e seus descendentes (“selvagens”, inferiores), mulheres (nesse caso, entra o racismo do tipo misógino) etc. E, em tempos de guerra acirrada no Oriente Médio, vem recrudescendo o racismo contra povos árabes, notavelmente em um neo antissemitismo. Ao mesmo tempo, observa-se o ódio de muitos aos muçulmanos em geral, não somente aos terroristas implacáveis ou extremistas, eles mesmos criminosos raciais. Volto a mencionar o caso do racismo contra judeus: muitos são os que, paradoxalmente, se consideram “antifascistas” com orgulho, mas não conseguem evitar transparecer seu preconceito estrutural contra esse povo – isso é muito antigo, muito antes do Holocausto.
Ainda temos preconceito racial estrutural contra pessoas originárias de diferentes unidades federativas no Brasil: preconceito contra nordestinos, gaúchos (há muitos casos de homofobia e antipatia para com descendentes de europeus brancos do Sul), pessoas do centro-oeste agrário, paulistanos, cariocas etc. Esta semana, fui surpreendida ao ser acusada frontalmente de racismo e ser alvo de bullying: comentei em uma postagem sobre o Estado do Maranhão como ponto turístico, que é o Estado mais pobre (e vilipendiado e abandonado) do Brasil. Isso se confirma em qualquer pesquisa rápida no Google. Sim, o Maranhão é lindo como os Lençóis Maranhenses. Não, não estava culpando os maranhenses, mas, talvez inocentemente, quis lançar um fato a ser observado com maior cuidado por nossos governantes e pela sociedade brasileira em geral. A saber, o desprezo de certas áreas, ainda mais isoladas no Sertão Nordestino, região mais necessitada economicamente do país.
Sei que os ânimos estão à flor da pele no Brasil. Estamos divididos e sendo agredidos política, cultural, religiosa, moral, economicamente. Nesse cenário caótico, muita gente vem sendo chamada de “racista” e recebendo rótulos violentos. Como citado, nem sempre é intenção da pessoa cometer racismo, porém isso não impede que alguém se sinta ofendido. O que fazer? Devemos cuidar com nossos atos e nossas palavras, e ao mesmo tempo evitar sermos “mimizentos” e levar tudo para o lado pessoal, alimentando egos inflados ou frustrações alheias. Difícil equilíbrio. Mas há muita gente “salivando” de ódio com acusações de preconceito infundadas, ou que não foram intencionais, e pronta para contra-atacar de maneira ríspida com seu “racismo estrutural particular” e seu ego frágil.
Na dúvida, o racismo deve ser combatido pela vigilância de cada um de nós. Pode aparecer em piadinhas aparentemente inocentes, certos termos, costumes, atos quase automáticos. Coisa que se passa de pai para filho, de vó para neto, que muitas vezes não percebemos. Por exemplo: o termo “mulato” provoca desconforto em muita gente, mas muitos de nós, do Rio Grande do Sul, costumamos utilizar esse termo sem nenhuma intenção de depreciação. Só há pouco fui descobrir que a palavra é desrespeitosa para boa parte dos afrodescendentes, porque vem de “mula”. E que nem todos os afrodescendentes aceitam ser chamados de “negros”, enquanto outros se orgulham de se autodenominar “pretos” e de celebrar sua cultura africana. Até títulos de obras clássicas, como “O caso dos dez negrinhos” de Agatha Christie, foram mudados (“E não sobrou nenhum”).
Nesse bojo de incongruências sociais e morais, cabe ao governo, em primeiro lugar, promover ações de combate a qualquer tipo de preconceito, como o preconceito racial estrutural. Ao mesmo tempo, lembremos que não existe “ódio do bem”, não existe “manter meu preconceito para expor o seu”. Um descendente de alemães pode se magoar tanto por ser chamado de nazista, sem motivo algum, como um índio pode se sentir isolado, abandonado e vilipendiado na sociedade que não os acolhe e lhes dá muito pouca representatividade. No genocídio entre indios na Amazônia, por exemplo, vitimados por doenças, subnutrição e suicídios, o governo brasileiro mostrou todo o seu descaso simplesmente parando de contabilizar os óbitos quando houve grande alta em 2024. Os donos da nossa terra sucumbem em silêncio e imersos em preconceitos de outros brasileiros e até de muitos governantes.
Lembrando que, apesar de tudo, eu e você temos todo o direito de não gostar de um hábito ou cultura, como uma religião de matriz africana ou o luteranismo alemão, uma culinária, um hábito de um povo, mas precisamos respeitar e não generalizar. Atacar ou odiar alguém, ou sentir-se superior pela cor da pele, traços genéticos ou ascendência, não é exatamente o que se espera de uma pessoa comprometida com a sociedade, com seu lugar como cidadã e com o combate a todas as formas de injustiça.
Tentemos ser pessoas de valor, que valorizam outras pessoas. Em especial as que estão dispostas a serem valorizadas, e não a apenas rilhar os dentes e brigar, chamando o ódio delas de seu, vitimizar-se, agredir. Nesses casos, o melhor é se afastar: há quem não aceite diálogo, e tenha enormes frustrações e preconceitos cegantes. Como disse, supostamente, o judeu Albert Einstein: “É mais fácil desintegrar um átomo que um preconceito”.
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