Dando uma olhadela na História (e mesmo na história das nossas próprias vidas), é notório como a humanidade sempre se envolveu em disputas, guerras, vingança, ódio, preconceitos, traições, ganância, rótulos limitantes, crueldade pura. E o maior motivo disso, me parece, é que conviver com o diferente, com o outro — indivíduos, grupos ou povos — sempre foi o maior desafio humano. Um desafio que nasce do nosso egotismo subjacente à condição humana.
Daí que me soa falácia a teoria da tábula rasa de Locke: o ser humano nasce como uma folha em branco ou papel branco (tábula), sem conhecimentos, ideias inatas ou conceitos preexistentes; igualmente, considero sofismático da parte de Rousseau a ideia de que “o homem nasce bom e a sociedade o corrompe”.
Sim, a sociedade pode contaminar muito o ser humano, desviá-lo, torná-lo algo abjeto social e moralmente em certo local e em certa época: mas definitivamente não acho que o ente humano nasça exatamente “bom”, e nem mesmo desprovido de preconceitos para com o que lhe é estranho ou divergente. Na verdade, o humano nasce maculado com um imenso desafio de conviver com o que lhe é diferente ou estranho.
A CABALA DA INVEJA E A DISPUTA INTRÍNSECA ENTRE OS HUMANOS
A natureza humana é um tema que me atrai há muito. Mas que incômodo é nos depararmos com as realidades de nossa essência natural.
Tenho estudado a cabala ou Kaballah, ensinamentos místicos da tradição judaica, no livro de Nilton Bonder A cabala da inveja. E por que falo de inveja? É que, sem dúvida, consiste em um dos aspectos que fazem mais difícil a convivência de uns com os outros como humanos. É um dos cernes daquilo que é “humano, demasiado humano”.
Bonder distingue, conforme os rabinos antigos o fizeram, a inveja dos ciúmes e da cobiça. São territórios pantanosos e de limites tênues, mas todos nocivos e típicos da humanidade. Como afirma o autor, queremos sempre proteger nossos territórios, mormente com voracidade quanto mais nos importam: há o território da maternidade, por exemplo, ou do status social, ou o profissional. Em seus próprios territórios existenciais, as pessoas, como expressa Bonder, costumam pisar nos pés umas das outras; no entanto, “muitas vezes o fazem porque não deixamos nenhum espaço onde pudessem colocar o próprio pé senão sobre o nosso” (idem, Bonder).
E o que fazer com o que somos ou tendemos a ser?
Bonder cita o exemplo de que, em uma oca ianomâmi ou na mesa com uma família iemenita, devemos ter a sensibilidade de buscar um comportamento que se adapte à realidade (diversidade) à qual nos agregamos. “Deveríamos entender que, em relação a outras pessoas, também ingressamos em outro território. É correto buscarmos sempre interagir, porém, sem a devida consciência e sem respeitar os espaços que invadimos, cometemos muitas ‘gafes’” (Bonder, ibidem).
Portanto, há um pendor imanente — que coaduna com a historicidade humana e nossas percepções com o passar do tempo — de o ser humano praticar violências mentais e físicas em suas interações. Sejam elas com outros humanos, com animais como Orelha e outros maltratados e abandonados, e até com a própria Natureza vilipendiada.
O pior é que tendemos a nos justificar ou a culpar o outro: como na tradição cristã, Adão primeiro culpa sua companheira, no que não está errado, porém ele aceitou desobedecer à ordem de Deus junto dela; depois, ambos tentam se explicar. Dali nasce uma relação abalada, a mortalidade, as dores de parto, a vergonha e nossa natureza decaída.
Já o primeiro pecado registrado na tradição cristã é a inveja: Caim mata seu irmão Abel porque sua própria oferenda ao Todo-Poderoso foi rejeitada (em vista de um coração impuro), enquanto a de Abel foi plenamente aceita. Nesse caso, Bonder pergunta: Caim matou Abel porque seu presente foi rejeitado ou porque o de Abel foi recebido? Ou ambos?
Assim é em todas as mitologias conhecidas: os deuses ou caracteres refletem o comportamento humano, e sentimentos como rancor, ressentimento, cobiça, ciúmes, ganância, egoísmo, e, é claro, a inveja. Essa palavra tão feia que ninguém quer admitir que sente.
O RANCOR DA DIFERENÇA
“O rancor é um produto da diferença, ou melhor, da descoberta da diferença”, diz Bonder em sua supracitada obra.
Precisamos aprender a aceitar e a conviver — não necessariamente apoiar — com todas as diferenças no amplíssimo espectro humano. Cada um de nós resplandece (ou esconde) suas “cores verdadeiras” (“True Colors”, como no clássico de Cyndi Lauper, e é claro que não se refere apenas a cor de pele ou raça, embora estas sejam questões milenarmente problemáticas na humanidade).
Então, é condição essencial para uma existência minimamente saudável o saber conviver com a diferença, justamente porque a diferença é uma tendência na Criação. Quando não sabemos conviver vêm os já citados sentimentos de rancor, orgulho, inveja, cobiça, ciúmes, egocentrismo, a falta de empatia — eles reverberam, em muitos casos, em ações paradoxalmente chamadas de “desumanas”: cruéis e estapafúrdias.
De maneira que todos nós teremos sempre de combater nossos “demônios ferozes” ante a diferença do outro. A vida toda. Em todo lugar. Perdendo, ganhando, prosseguindo em tentarmos ser melhores para nós mesmos e para quem amamos.
Suprimir todas as nossas “más tendências” é impossível, visto que jazem na natureza humana. Pois conclamo que invistamos, cada um de nós, no autoconhecimento e ao mesmo tempo na compreensão do que faz parte do outro, do que é o outro, do que quer ser o outro. Desde que, obviamente, dentro da Lei, que o território do crime a ser punido ou evitado está acima da aceitação e da convivência nas sociedades.
UM MUNDO QUE CELEBRA A DIFERENÇA
Olhe o mundo. Veja todas as riquíssimas e belíssimas diferenças por toda parte. Entenda-se como um ser único, não necessariamente perdido ou descartável, mas, ao contrário, valoroso por ser unívoco e diferenciado. A diferença deve ser celebrada, mas que complicado isso é!
Tendemos a imitar os outros, ser como o que nos dizem que devemos ser, e isso pode gerar rancor, todo tipo de sentimento ruim e opressor diante do ataque à nossa liberdade. Devemos sempre examinar quem somos ou queremos ser, e aí caberá sempre uma lupa que é o nosso próprio coração. Na alma, no âmago, no muito íntimo é que enxergamos aquilo dentro de nós que Saramago chamou de “coisa sem nome, que é o que somos”.
CONHECE-TE A TI MESMO
Com autoconhecimento, adaptação e autoestima, poderemos conviver melhor. Primeiro com nós mesmos, para poder daí estender a cordialidade e a compreensão, dentro do possível, aos outros. Evitar seguir impulsos, instintos prejudiciais e repetitivos.
Quem briga sempre com si mesmo não pode esperar paz ou pertencimento em seu derredor.
E para que fique límpido: às vezes é necessário sim fazer guerra, até para obter a harmonização e progredir, e eliminar a maldade; muitas vezes somos atacados e temos de nos defender e a quem amamos ou ao que é nosso por direito. Apesar disso, sempre que pudermos, devemos evitar “conflitos desnecessários” (o que rabinos e Nilton Bonder chamam de “tolice”, e como evitá-la parece uma missão impossível às vezes!).
Nosso mundo anda mais belicoso do que nunca. Voltou mais doente da pandemia, mais gélido e niilista, quando tanta gente precisa de saúde, comida, acolhimento, amor e fé. Presença, ação, convivência. Aceitação. Se necessária, a distância, sim. Mas a agressão gratuita e corriqueira só revela nossas frustrações e nossa tolice. É conviver com tudo e todos os que nos cercam, e com o que está dentro de nós — esse só pode ser o grande significado da vida.
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