O uso da semaglutida, medicamento originalmente desenvolvido para o tratamento do diabetes, mostrou resultados surpreendentes na redução da mortalidade por doenças cardiovasculares. De acordo com uma subanálise do estudo Select, apresentada na 32ª edição do Congresso Europeu de Obesidade (ECO), o tratamento com semaglutida reduziu em 50% o risco de morte por doenças cardíacas em apenas seis meses.
O estudo, que acompanhou mais de 17 mil pessoas por um período médio de 40 meses, revelou que os benefícios cardiovasculares começaram a se manifestar já nos primeiros três meses de tratamento, independentemente da perda de peso, sugerindo que o medicamento tem efeitos protetores além do emagrecimento. Durante esse período inicial, a semaglutida reduziu em 37% o risco de morte cardiovascular, infarto e AVC não fatais.
A subanálise, que envolveu pacientes com sobrepeso e obesidade com doenças cardiovasculares pré-existentes, também indicou uma redução de 59% na hospitalização por insuficiência cardíaca com o uso do medicamento após seis meses.
O endocrinologista Bruno Halpern, vice-presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade (Abeso), explicou que o efeito rápido da semaglutida pode ser atribuído a dois mecanismos principais: a redução da ingestão de calorias e a ação direta no sistema cardiovascular, com a substância ajudando a reduzir a inflamação e melhorar o fluxo sanguíneo ao dilatar as artérias.
A semaglutida no Brasil
No Brasil, a semaglutida é amplamente utilizada para o tratamento do diabetes, com dosagens que variam de 0,25 mg a 1 mg. Além disso, a medicação também é usada de forma off label para o tratamento de sobrepeso e obesidade, com dosagens de até 2,4 mg. No entanto, o medicamento ainda não está disponível no SUS e não tem a indicação oficial para a redução de risco cardiovascular, embora a Novo Nordisk, fabricante da semaglutida, tenha submetido o medicamento à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) para avaliação.
Com a crescente evidência dos benefícios cardiovasculares da semaglutida, o estudo Select tem o potencial de sensibilizar governos e sistemas de saúde a tratarem a obesidade como uma condição médica que impacta significativamente a saúde pública, não apenas uma questão estética, como ainda é visto em muitos lugares.
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