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O Estado acuado: quando o crime organizado avança mais rápido que a política

Vamos falar de soberania? 50 milhões de brasileiros vivem em áreas dominadas por facções criminosas | Por Leandro Quirino

A decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas produziu um efeito que vai muito além da diplomacia. Ela expôs uma ferida que há décadas o Brasil tenta esconder: o crescimento de facções criminosas que deixaram de ser apenas organizações ligadas ao tráfico para se tornarem estruturas econômicas, financeiras e territoriais capazes de desafiar o próprio Estado.

Hoje, PCC e Comando Vermelho não são apenas problemas de segurança pública. São fenômenos de poder. Estudos apontam que as duas organizações somam cerca de 70 mil integrantes e possuem ramificações em dezenas de países. Não se trata mais de criminalidade local. Trata-se de redes internacionais que movimentam bilhões de reais e operam em mercados ilícitos que vão do narcotráfico à lavagem de dinheiro.

Diante dessa realidade, causa estranheza que parte da classe política brasileira ainda trate o tema com cautela excessiva, relativizações ou disputas ideológicas. O crime organizado não é um problema da direita ou da esquerda. É um problema do Estado. Mas a reação política ao crescimento das facções revela um país preso a narrativas partidárias enquanto organizações criminosas ampliam sua influência sobre territórios, presídios e atividades econômicas.

Nos últimos anos, diversas investigações policiais revelaram tentativas de aproximação entre criminosos, operadores financeiros, agentes públicos, empresários e personagens do universo político. Em muitos casos, não surgem provas de participação direta de partidos em esquemas criminosos, mas aparecem sinais preocupantes de zonas cinzentas onde interesses políticos, eleitorais e econômicos passam a conviver perigosamente com estruturas ligadas ao crime organizado.

A própria história latino-americana mostra como organizações criminosas prosperam em ambientes de fragilidade institucional. Em países como Venezuela, México, Colômbia e partes da América Central, grupos armados e cartéis cresceram justamente quando governos passaram a perder capacidade de controle territorial ou optaram por respostas insuficientes diante do avanço do crime.

No Brasil, o debate frequentemente se transforma em disputa ideológica. Enquanto setores da esquerda costumam enfatizar causas sociais da violência, grupos da direita defendem respostas mais duras na área de segurança. O problema é que nenhuma dessas abordagens, isoladamente, conseguiu impedir que facções se transformassem em verdadeiras multinacionais do crime.

A situação se torna ainda mais delicada quando lideranças políticas parecem mais preocupadas em administrar o desgaste diplomático de determinadas decisões internacionais do que em enfrentar o núcleo do problema: a expansão contínua das organizações criminosas.

O crescimento das facções não ocorreu por acaso. Ele é resultado de décadas de ausência estatal em comunidades vulneráveis, colapso do sistema prisional, corrupção estrutural, fronteiras frágeis e incapacidade de coordenação entre governos. Nenhuma administração federal das últimas décadas pode afirmar que derrotou o crime organizado.

O Brasil vive hoje uma contradição evidente. Possui uma das maiores economias do mundo, mas enfrenta dificuldades para controlar organizações criminosas que operam dentro e fora de suas fronteiras. Enquanto isso, facções ampliam presença em rotas internacionais, mercados clandestinos e redes financeiras sofisticadas.

A principal questão não é se a classificação americana foi correta ou não. A pergunta central é outra: como o Brasil permitiu que grupos criminosos alcançassem tamanho poder a ponto de se tornarem preocupação internacional?

Quando facções passam a influenciar economias locais, controlar territórios, infiltrar estruturas públicas e projetar operações para dezenas de países, o debate deixa de ser apenas policial. Torna-se uma discussão sobre soberania, governança e capacidade do Estado.

O risco maior não é a pressão externa. O risco maior é a normalização interna. Porque toda vez que a política transforma o combate ao crime organizado em instrumento de disputa partidária, as facções ganham tempo, dinheiro e espaço.

E organizações criminosas sabem usar muito bem cada minuto que recebem da política.

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