23.4 C
Belo Horizonte
InícioBrasil & MundoAs cinco feridas emocionais

As cinco feridas emocionais

Exagerado, jogado aos teus pés, eu sou mesmo exagerado”, cantava Cazuza, de joelhos, gritando. Não estava longe da realidade da maioria de nós:  reações descabidas no presente podem representar, na verdade, ecos de dores do passado — e isso não é novidade. Nesse bojo, a filósofa Lise Bourbeau desenvolveu uma teoria que delimita cinco de nossas principais feridas emocionais. A autora mescla psicologia comportamental a uma análise um tanto quanto metafísica do sofrimento humano.

A  conjectura da autora canadense postula que, para sobreviver à dor da infância (quase sempre a nossa infância não passou totalmente), criamos máscaras, como mecanismos de defesa que moldam nossa personalidade e até mesmo nossa fisiologia.

A primeira ferida emocional, e, segundo Bourbeau, a mais profunda, é a Rejeição. Carrega consigo a máscara do escapista, e afeta diretamente nosso direito de existir. Para entender melhor: uma pessoa que se retrai em uma reunião de trabalho, omitindo-se, ou que termina um relacionamento ao menor sinal de conflito para não ser rejeitada primeiro, é escapista. Prefere se tornar invisível a correr o risco de não ser aceita. Busca, constantemente, um lugar que julga não merecer.

Depois, vem o Abandono, portando a máscara do dependente. Diferentemente da rejeição, em que o indivíduo não se sente querido, o Abandono é sobre não ser sustentado ou cuidado o suficiente. Por exemplo, manifesta-se na dificuldade extrema de ficar sozinho, ou na obsessão por atenção a toda hora, muitas vezes dramatizando situações e até adoecendo para garantir que o outro não vá embora. É um medo paralisante do silêncio e da solitude (que, na verdade, aqui é apenas o martírio da solidão).

Já a Humilhação aparece, sôfrega e hesitante, sob a máscara do masoquista. Essa dor emocional emerge quando a criança sente que seus pais têm vergonha dela, ou quando sua intimidade é exposta. No dia a dia, o masoquista emocional tende a se sobrecarregar com os problemas dos outros, em uma férrea missão imaginária de “salvador”. Isso ocorre para que tente lidar com a própria vergonha, infringindo-se um tipo de autocastigo. Essas pessoas têm dificuldades em sentir prazer sem culpa — ou mesmo aceitar que os outros o sintam.

E temos a ferida emocional da Traição. Empunhando a máscara do controlador, essa quimera emocional erige-se da quebra de confiança, em geral advinda de relações amorosas ou românticas. Aqui, há uma necessidade de provas de fidelidade e de força de quem quer controlar. Então vem o microgerenciamento, quando ele precisa saber de tudo, prever tudo e, enfim, dominar o ambiente. Temos um ente cético, impaciente, e que sofre com o pavor de deixar transparecer vulnerabilidades: ser vulnerável, para ele, é ser enganado (ser trouxa).

Finalmente, a quinta das cinco feridas emocionais é a Injustiça, que veste a belicosa máscara do rígido. Uma face acoplada que é desconfortável à pele e ao crânio, forjada em aço rústico a partir de ambientes frios e autoritários, onde o desempenho é, ou era, mais importante que a individualidade. Eis o perfeccionista clássico, para quem é difícil relaxar; e, ao mesmo tempo, ele é extremamente crítico para com si mesmo e para com os outros. Acima de tudo, almeja a justiça — a qualquer custo, o que quer dizer que, muitas vezes, acaba sendo injusto com as próprias necessidades emocionais. Podemos pensar, nesse caso, em contextos de extremismo religioso, autoritarismo de pais ou tutores, ou em um entorno por demais “politicamente correto” ou punitivo; e, ainda, desdenhoso para com questões afetivas.

DA CONSCIÊNCIA À CURA

A aplicação da teoria das cinco feridas emocionais de Lise Bourbeau no cotidiano carece de um pensamento crítico apurado e atento. É muito fácil, por exemplo, atirar a si mesmo na armadilha da ferida do abandono como desculpa para comportamentos tóxicos ou ciúmes excessivos. Devemos ser honestos com quem somos, o que significa reconhecer a ferida sem nos tornarmos reféns dela. Adquirir consciência do que sentimos e do que nos fere é um excelso e corajoso passo para começarmos a nos amarmos e a nos curarmos.

Sim, é sempre difícil falar em “cura” quando tratamos de feridas emocionais. E curar frequentemente dói. Muitos sequer admitem que têm ferimentos na alma — mas, no fundo, o corpo sabe, e poderá gerar somatizações em forma de doenças físicas e transtornos mentais, mesmo muito tempo após o ferimento.

Certo é que sempre há como amenizar, e às vezes o tempo faz isso. Porém, o ideal é que procuremos o autoconhecimento e identificar “onde dói” e “por que dói”. Uma tarefa, por vezes, hercúlea e demorada, uma jornada da vida inteira. Nisso a terapia psicanalítica, por exemplo, pode ajudar bastante: olharmo-nos no espelho sem omitir o que vemos. Ver tudo o que estávamos escondendo dentro de nós.

Enfim, é importante observarmos nossas reações, nossas raivas desproporcionais, desejos súbitos de sumir, nossos exageros de Cazuza, e fazermos perguntas a nós mesmos. Quem está no comando, eu e uma situação, ou a minha ferida que grita? Qual é ela, de onde veio?

Podemos tentar encontrar os gatilhos das situações que ativam nossas máscaras: críticas no trabalho? Na relação amorosa? Vácuos no WhatsApp? Ficar sozinho, sem companhia física? Cobrar-se demais, ou cobrar demais dos outros, até criar uma gastrite nervosa, até ruir em inveja e frustração, sem conseguir sair do lugar, ou andando entre penhascos desvairados?  

Ainda, existe a alternativa de um acolhimento sem identificação: o objetivo então não é “curar para nunca mais sentir”, mas sim diminuir a intensidade de cada máscara emocional. Admitir quem somos. Dessa maneira, o rígido precisará aprender a ser mediano às vezes, e o dependente, a jantar sozinho e apreciar sua própria companhia, seja lendo livros, vendo séries, inventando algo novo, praticando um hobby, apenas contemplando a Natureza.

Em suma: a teoria das cinco feridas emocionais não nos impinge sentenças, mas indicadores. É como se apontasse onde nossa pele está mais fina. Ao nomear esses pontos, tiramos deles o poder do anonimato e o poder irrestrito sobre nós. É sobre maturidade real: parar de culpar o passado (e isso é bem difícil) e passar a responsabilizar o presente e nossas atitudes em relação a ele. É saber que todos nós temos cicatrizes, em diferentes partes, mas podemos, como bem disse Clarice Lispector, viver “apesar de” (que é assim que se vive). Embora, parafraseando outro ícone da Literatura e da Filosofia que é Platão, tenhamos sempre a tendência de tocar com mais frequência onde dói: daí a importância de conhecê-lo, esse lugar ferido, essa criança violada, para respeitá-la e, então, tratá-la.

Negar uma dor interna é negar a si mesmo.  

::: CLIQUE AQUI  E ENTRE PARA O NOSSO GRUPO NO WHATS APP :::

Leia mais: As cinco feridas emocionais

Acidente Assassinato Belo Horizonte Betim BR-040 BR-251 BR-262 BR-365 BR-381 Contagem Corpo de Bombeiros Crime Cruzeiro Divinópolis Governador Valadares Grande BH Ibirité Ipatinga Itabira João Monlevade Juiz de Fora Lula Minas Gerais Montes Claros Nova Lima Patos de Minas Polícia Civil Polícia Federal Polícia Militar Polícia Militar Rodoviária Polícia Rodoviária Federal Pouso Alegre Previsão do Tempo Ribeirão das Neves Sabará Samu Santa Luzia Sete Lagoas Triângulo Mineiro Tráfico Uberaba Uberlândia Vale do Rio Doce Vespasiano Zona da Mata mineira

RELACIONADOS

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui