Uma pesquisa inovadora da Universidade Federal de Lavras (UFLA) promete transformar um dos maiores símbolos brasileiros — o café — em arma poderosa contra doenças tropicais. Cientistas descobriram que extratos de café verde e torrado, especialmente os de qualidade inferior, podem eliminar até 99,2% das larvas do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, zika e chikungunya.
A formulação, batizada de “Solução Inovadora 5”, foi desenvolvida com apoio do Consórcio Pesquisa Café, coordenado pela Embrapa, e se mostra não apenas eficaz, mas também sustentável e de baixo custo.
“Transformar um resíduo em solução contra arboviroses é um avanço dentro da economia circular”, destaca a professora Joziana Barçante, coordenadora do estudo.
Café torrado + emulsificante: a fórmula poderosa
Nos testes realizados, o composto mais potente foi o produzido com café torrado associado ao emulsificante Tween 80®, alcançando quase 100% de mortalidade das larvas em apenas 72 horas. A análise química dos extratos identificou substâncias como cafeína, ácido cafeico, ácido clorogênico e, no caso do café torrado, catequina — combinação que, segundo os pesquisadores, pode ter efeito sinérgico no combate às larvas.
Solução sustentável para o agronegócio e a saúde
Além de representar um avanço no combate às arboviroses, o estudo abre caminho para o aproveitamento de cafés de baixa qualidade ou subprodutos da torrefação, muitas vezes descartados ou vendidos a preços muito baixos. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil produziu cerca de 54,4 milhões de sacas de café em 2023, número que inclui parcela significativa de grãos classificados como “fora de padrão” para exportação ou consumo nobre.
O reaproveitamento desses resíduos reforça o conceito de economia circular e pode oferecer alternativa sustentável aos inseticidas sintéticos, frequentemente criticados pelo impacto ambiental e pelo risco de gerar resistência nos mosquitos.
Próximos passos: mosquitos resistentes e patente
O estudo, que já rendeu prêmios acadêmicos, integra um projeto maior voltado ao aproveitamento de cafés de baixa qualidade, e conta com a participação de pesquisadores da UFLA e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O próximo passo inclui testes contra mosquitos resistentes a larvicidas tradicionais e o processo de registro de patente da fórmula.
A expectativa é que, se tudo correr bem, a solução possa ser produzida em larga escala, tornando-se mais uma ferramenta no combate às epidemias de doenças transmitidas pelo Aedes aegypti — problema crescente no Brasil, que em 2024 já registrou quase 5 milhões de casos de dengue, segundo o Ministério da Saúde.
Se a Solução Inovadora 5 chegar ao mercado, poderá não apenas salvar vidas, mas também oferecer renda extra para pequenos produtores e indústrias de café, ampliando ainda mais o potencial social e econômico do grão mais amado do país.
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