Uma sequência de mortes e agressões violentas dentro de unidades prisionais na Região Metropolitana de Belo Horizonte está expondo uma grave crise de segurança no sistema penitenciário mineiro. Em menos de uma semana, três presos morreram e outros ficaram gravemente feridos em episódios ocorridos tanto no Presídio Inspetor José Martinho Drumond, em Ribeirão das Neves, quanto no Centro de Remanejamento de Presos (Ceresp) Gameleira, na capital.
Na mais recente ocorrência, confirmada neste domingo (6) pela Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), um detento de 37 anos foi encontrado sem sinais vitais dentro de uma cela do presídio em Neves na sexta-feira (4). Dois presos assumiram a autoria do homicídio. O caso está sob investigação da Polícia Civil.
Menos de 24 horas depois, no sábado (5), outro preso foi brutalmente espancado na mesma unidade. O autor, também detento, confessou o crime e está à disposição da Justiça. A vítima foi levada em estado grave para atendimento médico, mas até o momento apresenta quadro estável.
Dois dias antes, na quinta-feira (3), outro interno, de 33 anos, morreu após uma briga dentro da cela no mesmo presídio. Ele chegou a ser transferido ao Hospital Municipal de Ribeirão das Neves, mas não resistiu aos ferimentos. Segundo informações de agentes penitenciários ouvidos pela reportagem sob condição de anonimato, a vítima já havia sido alvo de ameaças.
Além de Neves, a violência também marcou o Ceresp Gameleira, em Belo Horizonte. Na segunda-feira (30/6), um preso de 48 anos foi encontrado morto em sua cela. Outro detento, de 36 anos, assumiu a autoria do crime. O Ceresp também registrou um caso grave de espancamento no dia 29 de junho: um detento de 33 anos foi encontrado inconsciente na cela após, supostamente, cair da cama — versão contestada por agentes penitenciários, que suspeitam de agressão. O homem foi levado em estado grave para o Hospital João XXIII.
Crise de segurança e superlotação
Em nota, a Sejusp informou que todos os episódios estão sendo apurados, tanto criminalmente pela Polícia Civil quanto administrativamente pelas diretorias das unidades prisionais. “Todos os procedimentos cabíveis foram adotados para garantir a ordem e a segurança nas unidades,” afirmou o órgão.
Contudo, policiais penais relatam que o clima de tensão está elevado. Segundo agentes, há fragilidade nos protocolos internos e déficit de pessoal. “Não há gerenciamento de crise. Fragilizaram os procedimentos. Estamos com os pés e mãos atados”, afirmou um servidor.
Especialistas em segurança pública e entidades como o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) apontam a superlotação como um dos principais fatores de violência nas cadeias mineiras. Dados do Infopen (Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias) mostram que Minas Gerais possui cerca de 80 mil presos, número quase 40% acima da capacidade instalada. O Presídio José Martinho Drumond, por exemplo, projetado para aproximadamente 1.700 detentos, abriga atualmente mais de 2.800.
Além da superlotação, há denúncias de facções rivais disputando espaço dentro das celas. “Há facções que utilizam a violência para pressionar a administração ou demonstrar poder. É um sinal claro de perda de controle”, alerta o sociólogo Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo, especialista em sistema prisional.
Fontes ligadas ao sistema prisional indicaram que parte dos episódios pode ter ligação com uma suposta represália à visita de uma juíza à unidade na sexta-feira, horas antes de um dos assassinatos. A Sejusp, contudo, não confirmou relação entre os fatos.
Aumento de mortes violentas
A crise atual se insere num contexto preocupante. Levantamento do CNJ indica que, entre 2019 e 2023, houve aumento de 28% nos casos de mortes violentas dentro das penitenciárias brasileiras. Minas Gerais está entre os cinco estados com maior número absoluto de homicídios no sistema prisional.
Enquanto as investigações seguem, famílias dos presos mortos ou agredidos cobram respostas. “É um lugar onde eles estão sob a guarda do Estado. Não dá para aceitar que continuem matando lá dentro”, afirmou um parente de uma das vítimas, pedindo para não ser identificado.
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