É fato que os livros nunca foram baratos no Brasil, até porque não temos, exatamente, uma vultosa população leitora. Mas estamos pagando 50, 70, 80 reais em um livro simples! Nem falo das edições de luxo ou especiais, que vão de 120 a 180 e até passam de 200 reais ou o céu é o limite. Pouco se fala nisso, mas livros se tornaram artigos de luxo no Brasil. É verdade que volta e meia há promoções, e sempre há, principalmente na Black Friday (aproveito para divulgar o e-book da minha obra mais recente e totalmente ilustrada, Como amar demais em um mundo canalha, que está R$ 8,20 na Amazon). Mesmo assim, visível e notavelmente os preços dos livros dispararam! Não apenas os impressos como e-books. Além de gostar de ler, agora o leitor tem de ter dinheiro sobrando ou muito bem economizado para ter livros.
A situação do Brasil não ajuda em nada neste momento. Vivemos em um dos países em que mais se pagam impostos no mundo, e eles não dão sinais de diminuir — ao contrário, como vem sendo noticiado. Isso obviamente afeta toda a cadeia de produção dos livros (e de tudo), como dito, mesmo os e-books. Muitas vezes, o e-book custa praticamente o valor de sua versão impressa. Então, além de ocuparmos os últimos lugares em rankings de Educação no mundo, não queremos, como país, como governo, galvanizar leitores e cultura. O Brasil não lê e “está tudo bem”. Cada vez se lê menos, e é mais dispendioso ler no país de tantos gênios, antigos e atuais, da literatura. Aposto que eles liam livros mais baratos, mesmo com menor tiragem.
Mas eu disse que foi lá por 2023 que os livros atingiram preços de “picanha na mesa do brasileiro”. Sim, porque fui pesquisar em minhas listas de compras e vi que foi pelos idos de 2023 que os preços dos livros dispararam. Pudera, desde lá são quase trinta impostos que aumentaram, e estamos afogados no quarto menor salário-mínimo da América Latina, nos maiores juros reais de parcelamento do mundo, na desvalorização do Real, na fuga de capitais e em um caos econômico sem precedentes desde a redemocratização. Ou, bem, falando por mim: desde que me entendo por gente, e eu sou dos anos 1980, embora provavelmente pareça ser de 1990s. Nunca vi situação igual, quando pude refletir sobre meu derredor.
Isso tudo nos impõe — porque é importante e é de se impor — o dever de valorizar mais nossos escritores nacionais, e mesmo baratear qualquer tipo de livro. E não somente alguns tipos de livro. Há dinheiro para Rouanet, milhões e milhões, todos os anos, então por que não investem na cadeia de produção de livros impressos e eletrônicos, ou/e na redução de impostos sobre nossas leituras? Talvez não seja interessante. Viável, tenho certeza de que é. Hoje mesmo vi o Congresso Nacional aprovando aumento de 100% nos salários do TCU.
O Brasil, faz tempo, não investe em Educação. A Educação (como setor) e a educação (como conhecimento e mentes livres e questionadoras) não são prioridades: verbas massivas cortadas, falta de “tempo”, falta de vontade de ler, falta de livros e de livros a preços acessíveis, falta de público leitor para ajudar a baratear os livros. Que triste situação.
Um país se faz com homens (seres humanos) e livros, disse Monteiro Lobato. Então talvez este seja um dos motivos pelos quais nosso Brasil está se desfazendo: não estamos lendo, nem permitindo ler. Qualquer advogado hoje é juiz, qualquer juiz decide o que quer. Qualquer um pode ser professor, qualquer um pode se formar, ler é um desperdício se há ChatGPT. É toda uma des-cultura de erudição e pesquisa. Nada contra a IA, fique claro! Mas ela é ferramenta, lembra? Nós somos os cérebros no controle, as mentes criativas que mandam no pedaço (não podemos nos esquecer disso).
E agora vou falar como os antigos, porque desta vez é verdade: “no meu tempo”, sim, no meu tempo se lia mais e se tinha mais interesse em ler. Liam-se livros na biblioteca, emprestavam-se livros — que, como sói, nunca voltavam. Era uma preciosidade ter um livro, uma biblioteca. Sei que para muitos “soldados” no Brasil ainda é, mas que esforço e amor temos no coração. Ler, enfim, deve ser aquela preciosidade de, mesmo não tendo um livro, procurar o livro: a “felicidade clandestina”, como no conto e livro homônimos de Clarice Lispector: a menina quer tanto ler, e a outra não deixa. Quem não está nos deixando ler, e por quê? Quem está dizendo que não podemos ler, e para quê?
E ainda às vezes queremos o livro impresso, edição de luxo, de colecionador, queremos mimos de leitores, queremos relíquias que se guardam na estante e na alma. Faremos, então, quem sabe, o Movimento dos Sem Livros — MSL. É importante. A gente precisa de terra para plantar e colher conhecimento. Livros ensinam e libertam para pensar. É verdade que livros não mudam o mundo, como disse Caio Graco, o jurista romano: o que muda o mundo são pessoas que leem livros. Penso que seja a mesma coisa.
Mas o Brasil quer mesmo mudar? Queremos mesmo ler e querer ler?
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