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O ‘Monstro do Triângulo’: Tese da UFU sugere inocência de homem acusado de 25 assassinatos no regime militar

Uma nova e provocadora tese de doutorado da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) lança luz sobre um dos casos mais sombrios da história criminal mineira: o do “Monstro do Triângulo”. Orlando Sabino, o andarilho acusado de assassinar pelo menos 25 pessoas e 19 bezerros nas décadas de 1970 em Minas Gerais e Goiás, pode ter sido um “bode expiatório” da ditadura militar brasileira, sugere a pesquisadora Fernanda Gomes da Silva Nakamura.

Orlando Sabino, conhecido como “Monstro de Capinópolis”, teve seu nome ligado a uma série de crimes brutais, principalmente em cidades do Triângulo Mineiro, como Capinópolis e Canápolis. No entanto, a tese “Orlando Sabino: sujeito constituído pelas práticas discursivas na ditadura militar no Brasil”, defendida no programa de pós-graduação em Estudos Linguísticos da UFU, questiona essa narrativa.

Evidências Inconsistentes e a Sombra do Regime Militar

Fernanda Gomes da Silva Nakamura analisou reportagens da época e encontrou indícios que sugerem que os crimes foram atribuídos a Sabino para encobrir mortes cometidas por policiais militares em 1972, um dos períodos mais repressivos da ditadura militar (1964-1985).

Um dos pontos cruciais da tese é a descoberta de que um dos projéteis encontrados em uma das vítimas era de calibre .44, de uso restrito do exército brasileiro, conforme relatório da “Comissão da Verdade do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba”. “Era muito improvável que um andarilho conseguisse ter acesso a um material desse porte”, argumenta a pesquisadora. Além disso, a rápida sucessão dos crimes em diferentes localidades, com longas distâncias entre elas, levanta dúvidas sobre a capacidade de deslocamento de Sabino, que não possuía recursos.

A Construção Midiática de um ‘Monstro’

A pesquisa de Fernanda Nakamura também aprofunda a análise de como a mídia da época contribuiu para a construção da imagem de Sabino como um “monstro”. Ele era frequentemente descrito com características “animalescas” – olhos esbugalhados, vermelhos, a emissão de grunhidos, longos braços e cabelos desgrenhados. A junção de textos e imagens criava uma figura que “parecia um monstro”, e o fato de ser um homem negro, pobre e analfabeto facilitava a aceitação popular dessa narrativa e a justificativa para sua prisão.

O aspecto religioso também foi explorado na construção dessa imagem. Matérias jornalísticas, como as da revista Veja em 1972, afirmavam que Sabino “desaparecia virando fumaça” e desafiava orações de beatas e pais de santo, atribuindo-lhe características sobrenaturais. A morte de animais, como bezerros, também foi utilizada para criar um “aspecto ritualístico e animalesco”, desumanizando-o ainda mais. Curiosamente, Sabino nunca era ouvido nas reportagens, tendo sua voz completamente silenciada.

Vozes Dissidentes e a Inocência em Questão

Apesar da narrativa dominante, a própria mídia da época continha vozes que questionavam a culpa de Sabino. Fernanda destaca uma reportagem do Jornal do Brasil de 1972, com a manchete “Interrogatório não permite afirmação sobre culpa de preso do Triângulo Mineiro”, que relatava as dúvidas da polícia civil. A matéria apontava a impossibilidade de Sabino ter percorrido mais de 700 quilômetros em pouco mais de dois meses para cometer todos os crimes a ele atribuídos pela Polícia Militar.

Jornalistas como o uberabense Joaquim Borges e Pedro Popó, de Uberlândia, também se tornaram vozes contrárias à versão oficial. Borges desconfiava que a prisão de Sabino era um artifício da ditadura para encobrir perseguições políticas a grupos de resistência. Popó, que chegou a ter contato com Sabino, publicou o livro “O Monstro de Capinópolis”, no qual o descrevia como um homem pacato, afetivo e infantil, com tendência a concordar com o que lhe era perguntado – o que explicaria suas “confissões”.

O tipo físico de Orlando Sabino, descrito no relatório da Comissão da Verdade como “um jovem negro de vinte e cinco anos, estatura de 1,65 m e porte franzino”, também contradizia a figura monstruosa construída pela mídia.

Orlando Sabino permaneceu internado por 38 anos no Hospital Psiquiátrico e Judiciário Jorge Vaz em Barbacena, mesmo sem provas conclusivas. Somente em 2009, por intervenção da Defensoria Pública de Minas Gerais, sua soltura foi determinada, sendo transferido para um lar de idosos, onde faleceu em 2013, aos 66 anos.

A tese da UFU reacende o debate sobre a verdade por trás do “Monstro do Triângulo”, questionando a imparcialidade dos fatos na época da ditadura e a responsabilidade da imprensa na construção de narrativas. A Polícia Militar foi contatada, mas não se manifestou sobre o assunto.

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