Hugo Carvajal, ex-chefe da inteligência militar venezuelana e um dos homens mais próximos do falecido presidente Hugo Chávez, confessou envolvimento em tráfico internacional de drogas em depoimento à Justiça dos Estados Unidos. Conhecido como “El Pollo”, Carvajal aceitou colaborar com as autoridades americanas em troca de uma redução em sua sentença. O acordo, segundo documentos judiciais divulgados nesta semana, pode se tornar uma das maiores delações sobre crimes transnacionais envolvendo o regime chavista.
Detido na Espanha em 2019 e extraditado em julho de 2023 para os EUA, Carvajal responde a processos por tráfico de cocaína, lavagem de dinheiro e fornecimento de apoio material a organizações terroristas, incluindo as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).
No tribunal federal de Manhattan, Carvajal admitiu ter participado de operações para enviar toneladas de cocaína à América Central, ao Caribe e aos Estados Unidos, utilizando aeronaves oficiais, navios e rotas clandestinas. Ele revelou ainda detalhes de como o narcotráfico teria sido usado como fonte de financiamento político para o chavismo, além de relatar conexões do regime de Nicolás Maduro com grupos iranianos e redes criminosas internacionais.
“Estou disposto a contar tudo o que sei sobre o narcotráfico, sobre o aparato de inteligência usado para perseguições políticas, espionagem, fraudes eleitorais e sobre as ligações do governo venezuelano com países e organizações consideradas hostis aos Estados Unidos”, disse Carvajal ao juiz.
Rede criminosa e apoio ao terrorismo
Segundo a acusação do Departamento de Justiça dos EUA, Carvajal foi figura-chave no chamado “Cartel dos Sóis”, suposta organização composta por altos oficiais venezuelanos que teria transformado o país num corredor do narcotráfico. O cartel estaria diretamente envolvido na produção, transporte e distribuição de cocaína, em associação com as FARC e outras facções criminosas latino-americanas.
Em documentos revelados ao longo do processo, promotores federais acusam o regime Maduro não apenas de traficar drogas, mas também de manter acordos secretos com o Irã e com grupos como Hezbollah, classificados pelos EUA como organizações terroristas. Parte desses acordos envolveria suporte logístico, lavagem de dinheiro e envio de recursos em troca de tecnologia de vigilância e apoio diplomático.
Fraudes eleitorais
Carvajal, que ocupou o comando da Direção Geral de Inteligência Militar (DGIM) por quase uma década, também prometeu entregar provas de manipulação das eleições venezuelanas desde os últimos anos de Hugo Chávez até o governo de Maduro, incluindo detalhes sobre o funcionamento do sistema eleitoral e supostos acordos para fraudar resultados em pleitos presidenciais e legislativos.
“Tudo foi sistemático. Nada era improvisado. Havia um esquema estruturado para manter o poder a qualquer custo”, disse Carvajal.
Consequências políticas
Especialistas apontam que o depoimento do ex-general pode aumentar ainda mais o isolamento internacional de Nicolás Maduro, que enfrenta acusações de violações de direitos humanos, repressão a opositores e envolvimento direto em crimes transnacionais. Analistas consultados por veículos como The New York Times e El País afirmam que o impacto da delação pode se estender à América Latina, revelando laços perigosos entre o regime chavista e facções criminosas ou terroristas internacionais.
“Se Carvajal apresentar provas documentais, isso pode colocar Maduro em uma situação extremamente delicada tanto interna quanto externamente”, avalia Geoff Ramsey, pesquisador especializado em Venezuela do Washington Office on Latin America (WOLA).
Enquanto negocia sua sentença, Carvajal permanece sob custódia federal nos Estados Unidos. Se condenado sem acordo de colaboração, ele poderia pegar até 30 anos de prisão.
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