A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) voltou a pressionar o governo federal por medidas para conter a concorrência considerada desleal de fornecedores chineses no mercado de malhas de poliéster — insumo amplamente utilizado na fabricação de roupas esportivas e peças de alta demanda no varejo brasileiro.
Segundo o presidente da entidade, Flávio Roscoe, empresas chinesas estariam praticando dumping ao vender o quilo da malha a importadores brasileiros por US$ 2, enquanto ofertam o mesmo produto a US$ 7 para outros mercados internacionais. A indústria nacional comercializa o material a US$ 2,80, o que tornou a competição inviável.
A Fiemg afirma que a prática já reduziu em 99% a margem operacional das empresas brasileiras do setor, impulsionou um crescimento de 60% das importações, derrubou em 50% os preços praticados no mercado interno e elevou a participação chinesa nesse segmento de 20% para 50%.
Setor em alerta e investigação no governo
O caso está sendo analisado pela área técnica do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), que avalia a abertura de investigação formal. Segundo Roscoe, a decisão final deverá ser tomada pela Câmara de Comércio Exterior (Camex), mas ainda não há prazo para deliberação.
A Fiemg defende que seja adotada uma taxa antidumping de US$ 0,69 por quilo de malha importada da China — mecanismo previsto nas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).
“Não estamos pedindo tarifaço, estamos pedindo aplicação das regras vigentes. O comércio internacional é bem-vindo, mas precisa ocorrer de forma justa”, declarou Roscoe.
Impacto sobre empregos e risco de desindustrialização
A indústria nacional de malhas de poliéster reúne cerca de 200 empresas e gera aproximadamente 30 mil empregos diretos e indiretos no país. Segundo a Fiemg, o risco é que a pressão de preços leve à falência empresas brasileiras importantes para a cadeia têxtil.
Para Roscoe, o efeito no consumidor pode ser negativo no longo prazo:
“Primeiro há uma redução temporária dos preços. Depois que o mercado local é destruído, o fornecedor externo passa a ditar os valores, e o aumento é inevitável.”
Contexto nacional e pressão política por medidas
A discussão ocorre em meio ao avanço da proposta conhecida como “taxa das blusinhas”, que pretende elevar o imposto sobre importações de plataformas internacionais de 20% para 35%. O setor têxtil, um dos mais afetados pelo crescimento do e-commerce asiático, defende a medida como forma de harmonizar a concorrência.
Além do caso das malhas de poliéster, o Brasil acompanha uma onda global de investigação de práticas de dumping por parte de indústrias chinesas em diversos segmentos — de aço a painéis solares. Em 2024 e 2025, União Europeia e Estados Unidos anunciaram sanções mais duras a produtos chineses considerados subsidiados ou vendidos abaixo do custo.
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