Um relacionamento que parecia estável e cheio de planos para o futuro se transformou em um pesadelo para uma jovem de 26 anos, moradora de Belo Horizonte. Na manhã desta quinta-feira (20/11), ela descobriu que o homem com quem acreditava estar casada havia quase dois meses era, na verdade, um estelionatário que se passava por major do Exército. “Estou triste e envergonhada”, resumiu a vítima, ainda abalada após prestar depoimento na delegacia ao lado da família.
O suspeito, de 24 anos, foi preso em casa, no bairro Nova Suíssa, na região Oeste da capital, após investigação conduzida por um advogado criminalista contratado pela família da jovem. O profissional montou um dossiê com inconsistências nos documentos apresentados pelo homem, o que permitiu à polícia confirmar a fraude.
Meses de mentiras e manipulação
O relacionamento durou dez meses. Nesse período, a jovem foi envolvida em uma rede de histórias grandiosas: operações sigilosas do Exército, missões internacionais e até uma suposta aprovação para trabalhar na Interpol, em Londres.
“Eu confiava. Ele sempre tinha uma explicação para tudo”, conta. Os primeiros sinais de alerta surgiram quando um conhecido informou que o nome utilizado pelo homem não era verdadeiro. Pressionado, ele apresentou um “dossiê militar” — mais tarde descoberto como falso — com documentos personalizados, QR Codes e até supostas autenticações de cartório.
Nada ali, à primeira vista, parecia amador.
Família fictícia e isolamento emocional
Aos poucos, outros pontos começaram a destoar: parentes que nunca apareciam, números que não atendiam, histórias familiares contraditórias. “Ele dizia que só tinha relação com o pai, que realmente faleceu. Mas o resto era tudo inventado”, relata.
Segundo ela, o golpista recorria à chantagem emocional sempre que era contestado. “Pegava a mochila e dizia que iria embora. Em outros momentos, ameaçava, falando que minha mãe estava vazando informações militares e poderia responder processo.”
Casamento falso com ‘juiz de paz’ cúmplice
Em setembro, a farsa ganhou contornos ainda mais graves: o homem organizou um “casamento em casa”.
Fotos, gravação da cerimônia, ele fardado e medalhado — tudo parecia oficial. Mas o suposto juiz de paz, que celebrou a união, era um comparsa.
“Só minha família estava lá e esse amigo dele, que nem juiz era. A mãe dele disse que não conseguiu comparecer”, relembra.
Vaga na Interpol e prejuízo de R$ 50 mil
A maior perda financeira veio com a promessa de que ele teria sido aprovado para atuar na Interpol. Para isso, disse que precisaria arcar com cursos e despesas de deslocamento para Londres.
Movida pela confiança e pelo noivado recém-oficializado, a jovem pediu ajuda aos pais e à avó. “Foram cerca de R$ 50 mil. Achávamos que era investimento na carreira dele”, afirma.
O golpista ainda envolveu-se no inventário da avó da vítima, recebendo valores do pai dela sob justificativa de serviços jurídicos e emissão de documentos, nada comprovado.
A rotina dele também simulava a vida militar: roupas sociais, laptop, distintivo, arma na cintura — que, ao final, revelou-se ser uma pistola de airsoft. “Ele atirava na varanda. Eu acreditava.”
Vida em ruínas
Sob influência do homem, a jovem deixou o emprego e preparava-se para se mudar para o Reino Unido no dia 27 deste mês. A despedida da família ocorreu no último dia 8.
Mas foi ali que tudo começou a desabar: a mãe do suspeito apareceu na festa e contou que ele era filho único, sem ensino superior e sem carreira militar.
Dias depois, veio a confirmação: idade adulterada (ele dizia ter 30, mas tem 24), identidades falsas, documentos produzidos digitalmente e nenhuma ligação com o Exército.
Golpe do Amor: crime cresce no Brasil e preocupa autoridades
Casos como o desta jovem se multiplicam no Brasil. Segundo a Polícia Federal, golpes amorosos — também chamados de estelionato afetivo — aumentaram especialmente durante e após a pandemia, quando mais relações passaram a surgir em redes sociais e aplicativos.
Em 2024, o Ministério da Justiça registrou alta de denúncias envolvendo criminosos que se passam por militares, médicos e executivos para atrair vítimas. A tática é semelhante: construir confiança, isolar a pessoa da família e, depois, pedir dinheiro sob justificativas emocionais ou de “urgência”.
Advogado aponta sinais típicos de golpistas afetivos
O advogado Marcelo Colen, representante da vítima, destaca pontos que podem ajudar outras pessoas a reconhecer estelionatários:
1. Histórias grandiosas demais
“Relatos heroicos, operações secretas, cargos impressionantes: tudo isso serve para seduzir e justificar contradições.”
2. Contradições constantes
“O golpista precisa provar tudo. É documento para cada detalhe”, afirma.
Em uma relação saudável, diz ele, não existe essa cobrança desproporcional por comprovações.
3. Ausência de familiares
No caso de BH, nenhum parente do suspeito compareceu ao casamento falso.
“Golpistas evitam ser vistos por pessoas que possam desmenti-los.”
4. Pedidos de dinheiro associados a crises imaginárias
Segundo Colen, fraudes amorosas costumam envolver pedidos emergenciais com forte carga emocional: perseguição, suposta prisão, risco de vida.
5. Reações agressivas a perguntas simples
Questionar um detalhe e receber explosões emocionais é outro sinal. “É uma forma de manipulação”, diz.
Como se proteger
Especialistas recomendam:
- verificar informações básicas sobre a pessoa (emprego, documentos, redes sociais);
- observar comportamento, não discursos;
- conversar com familiares e amigos;
- desconfiar de urgências envolvendo dinheiro;
- interromper a relação se houver agressividade ao ser questionado.
Colen reforça: “Se algo parece errado, confie no seu instinto.”
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