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As telas são nossa “Caverna de Platão”: sombras digitais obscurecem o que é real

Na clássica alegoria de Platão, prisioneiros vivem acorrentados no fundo de uma caverna, voltados para uma parede onde sombras são projetadas por uma fogueira às suas costas. Para esses homens, aquelas silhuetas obscuras, trêmulas e bidimensionais representam a totalidade do que existe; eles não conhecem o Sol, as cores ou a profundidade dos objetos que as geram. A verdade, para quem nunca saiu dali, é apenas o reflexo distorcido de algo que eles sequer suspeitam que seja real.

Hoje, trocamos as paredes de pedra por telas de cristal líquido, e as chamas crispantes, por algoritmos silenciosos. Habitamos uma nova caverna, onde as correntes não são feitas de ferro, mas de conveniência e dopamina (o hormônio do prazer e da recompensa). Cada vez que acessamos um dispositivo, sentamo-nos na mesma posição dos prisioneiros gregos, aceitando que o fluxo de pixels diante de nossos olhos é o retrato fiel da existência, e ignorando que o brilho azulado é, na verdade, uma barreira entre nós e o — áspero e complexo — mundo concreto.

ABISMOS DE VIDRO

Na Era Digital e da Inteligência Artificial, o que majoritariamente consumimos não é mais a realidade, o que se vê a olhos nus, sem filtros ou prompts: são simulacros cuidadosamente editados. Confundimo-nos com nossos próprios “avatares” nas telas. As redes sociais, notadamente, funcionam como filtros que removem as arestas, o tédio e as imperfeições da vida humana, entregando uma versão melhorada que não existe em lugar algum a não ser nos códigos.

Imagem, texto, voz, experiência agora podem ser gerados sem nunca terem tocado o chão da vivência física, tornando o “real” cada vez mais difícil de ser definido ou justificado.

O alerta maior é em relação a nossa crescente incapacidade de explicar o mundo sem nos “acorrentarmos” às mediações digitais. Estamos tão submersos em narrativas prontas e fluxos de informação incessantes que o mundo físico nos parece estranho, um tanto vazio, incompleto. A vida deixa de ser vivida para ser documentada, e a validação do que somos passa a depender das sombras que projetamos nas redes e não da substância que carregamos fora dela. São tempos tão fugazes, relativos e intermitentes.

Ao fim, diria que estamos nos tornando fragmentos de uma linguagem que não dominamos: o código binário, as telas digitais, a IA — nossa caverna com nossa fogueira. Mais uma vez, não quero soar alarmante ou do tipo “no meu tempo”: mas sei como foi a transição do analógico para o digital porque minha geração, a Millenial, viveu isso dos anos 1980 para cá.

Penso que, entre as sombras digitais, que tantos progressos, facilidades e novidades interessantes nos trouxeram, despontam identidades pessoais fatiadas (mais do que nunca) em preferências de consumo e comportamentos previsíveis e até necessários, transformando a multiplicidade humana em zeros e uns, pu em “isto ou aquilo” como diria Cecília Meireles.

Mas sem pânico. Não é esta a intenção. É, mesmo no olho do furacão da maior revolução tecnológica da história da humanidade, tentar compreender o que está acontecendo e, quem sabe, o que está por vir. E alertar: enquanto permanecermos fascinados pelo movimento das sombras no vidro das “cavernas planas digitais”, o Sol do lado de fora se fará um conceito cada vez mais abstrato. Em tempo: isso sempre foi humano, demasiado humano, desde a Antiguidade, é verdade: preferimos o conforto de ilusões a enfrentarmos a nós mesmos e ao “mundo cru”.

Resta uma questão: o que chamamos de “realidade” é pessoal, íntimo e unívoco dentro de cada um de nós. Ali, em nossos recônditos labirínticos conscientes e subconscientes, nossa natureza tende a criar “sombras” e obliterar fatos ou indícios desagradáveis ou indesejáveis. Ainda assim, olhar o “Sol” sempre que possível é libertador e esclarecedor, e nos permite descobrir quem somos — a busca ancestral humana.

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