A Polícia Federal (PF) revelou que um esquema criminoso bilionário de mineração ilegal atuou ativamente para travar projetos de lei que criariam mecanismos de proteção para a Serra do Curral, cartão-postal de Belo Horizonte. As informações constam na operação “Rejeito”, deflagrada nesta quarta-feira (17/9) em Minas Gerais, que cumpriu 22 mandados de prisão preventiva, 79 de busca e apreensão e bloqueou bens avaliados em R$ 1,5 bilhão. Segundo a PF, o prejuízo potencial para o meio ambiente chega a R$ 18 bilhões.
Como funcionava o lobby
De acordo com representação da PF na Justiça Federal, lobistas e empresários compraram direitos minerários e usaram influência política para impedir que os projetos tramitassem tanto na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) quanto na Câmara dos Deputados. O geógrafo Gilberto Henrique Horta de Carvalho, apontado como lobista do grupo, é citado como peça central nesse processo. Um dos interlocutores era o ex-deputado estadual João Alberto Lages, também investigado.
Em mensagens interceptadas, os dois tratavam do impacto dos projetos sobre o “Projeto Taquaril” – plano para exploração em larga escala da Serra do Curral –, afirmando que a área de proteção “mataria” os planos de mineração. O esquema também pretendia explorar outra área estratégica às margens da BR-040, conhecida como “Projeto Rancho do Boi”, adquirindo terras do restaurante homônimo e de vizinhos para extrair minério de ferro.
Projetos travados
Dois textos são citados diretamente:
- PL 1.125/2022 (Câmara dos Deputados) – Cria o Parque Nacional da Serra do Curral. Apresentado pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), o PL está parado nas comissões desde 2022. A relatora, deputada Duda Salabert (PDT-MG), disse que sofreu pressões e que seu relatório foi retirado de pauta duas vezes. “O que a PF revelou hoje eu denuncio há anos. A máfia da mineração sabotou meu relatório”, afirmou.
- PL 1.449/2023 (ALMG) – Cria o Monumento Natural da Serra do Curral, abrangendo BH, Nova Lima, Raposos, Brumadinho, Ibirité, Sarzedo e Mário Campos. O texto, de autoria da deputada Beatriz Cerqueira (PT), está parado há quase dois anos sem sequer passar pela primeira comissão. “Esse é o exemplo de um grande esquema para impedir que projetos de interesse da população avancem”, disse a parlamentar em plenário.
Segundo a PF, a organização criminosa se infiltrava em grupos de trabalho, reuniões técnicas e até em órgãos de patrimônio para “espionar” e neutralizar iniciativas de proteção. A servidora Débora Maria Ramos do Nascimento França, ex-superintendente do Iphan em Minas, é acusada de articular licenciamento ambiental em área de proteção provisória.
Empresas citadas e áreas atingidas
As empresas Gute Sicht, Fleurs Global, MMF, Prisma e Empabra são apontadas como centrais no esquema. Segundo a PF, elas utilizavam um complexo de mais de 40 empresas, muitas de fachada, para ocultar lucros, lavar dinheiro e pagar propina. A Prisma Mineração, por exemplo, obteve direitos minerários em área protegida da Serra do Curral em maio de 2025 em um processo “marcado por favorecimento explícito”.
O “Projeto Rancho do Boi”, planejado pela Irontech Mineral Ltda. e Irontech Mineração S/A, previa extrair 550 mil toneladas de minério com faturamento estimado de R$ 1 bilhão, a apenas 20 metros de área urbana consolidada e em Área de Preservação Permanente.
Histórico de disputas
A Serra do Curral, tombada pelo município e em processo de proteção estadual e federal, vem sendo alvo de disputas desde o licenciamento de 2022 concedido à mineradora Tamisa para desmatar 41 hectares. O MP-MG apontou ilegalidades no processo e o MPF citou falta de anuência do Ibama. Mesmo assim, representantes de órgãos estaduais votaram favoravelmente no Copam. Em 2023, houve tentativa de reduzir em quase 80% a zona de amortecimento do Parque Florestal Estadual da Baleia.
Próximos passos
Com a operação, cresce a pressão para que os projetos de proteção voltem à pauta no Legislativo mineiro e no Congresso. Ambientalistas e parlamentares pedem celeridade na votação e revisão de licenças concedidas. O governo de Minas anunciou exoneração de servidores investigados. O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) e as empresas citadas não se manifestaram até o fechamento desta edição.
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