Você já deve ter ouvido falar em “bebê reborn”. É um fenômeno social. Econômico. Psicológico. É no Brasil. E é global. É um sintoma da Era da Inteligência Artificial, que traspassou a Era Digital que já está obliterada. O que chama a atenção é a significância do “artificial” em nossos dias de IA, e isso tem tudo a ver com bebê reborn. A valorização do simulacro, o tênue limite entre brincar ou se divertir ou entrar em uma paranoia que desafia a sanidade mental ou a percepção mínima da realidade concreta.
Ah, você talvez não saiba bem o que é “bebê reborn”. Talvez nenhum de nós saiba exatamente, nem quem os têm.
A princípio, um bebê reborn é uma boneca ou um boneco de borracha. Queiram ou não, é isso que é. Impressionam os detalhes quase idênticos aos de um bebê recém-nascido: mesmo veias e rugas, pele macia, cabelos implantados fio a fio e até olhos expressivos. Olhos expressivos: as janelas da alma. Que alma?
Alguns bebês reborn podem chorar. Têm reações e demandas – programadas, é claro. São criados como legítimos filhos. Levados a hospitais de gente. Já vi pedirem dispensa do trabalho por uma consulta em um médico para o bebê reborn. Já vi casais disputando a guarda do bebê reborn. Já vi mães desesperadas porque o bebê reborn parecia doente. Já vi ensinarem parto de emergência para bebê reborn. O que mais vamos ver? Há influencers de bebês reborn. Muitos. E tem plateia.
Em primeiro lugar, calma. Eu sei que cada um faz o que quiser com seu tempo e dinheiro – desde que dentro da Lei. Mas estamos falando, mais uma vez, de um fenômeno social, que afeta não apenas quem o vive, mas toda uma época. E que tem algo a nos dizer. Ou várias coisas a nos mostrar.
O bebê reborn é caro, muito caro, chegando a 10.000 reais ou mais. Demanda enxoval, cuidados frequentes, enfim, simula a relação mãe/pai e filho. Esses bebês artificiais têm sido cada vez mais procurados por adultos. E essas mães – são a maioria, as mulheres, que os adquirem – adoram mostrá-los ao mundo. O bebê reborn não se importa – ele não tem sentimentos. Parece, mas não tem.
Na verdade, bonecas realistas não são coisa nova. Eram comuns na época da II Guerra Mundial, por exemplo, seguindo “vivas” até os anos 1990. Mas é claro que o movimento atual dos bebês reborn, com tudo o que abarca, é novo. E é importante o que traz à sociedade, questões existenciais, econômicas, psíquicas etc.
Para não me estender: acho eu que bebê reborn é preocupante.
Qem quiser ter um bebê reborn que tenha – somos livres. A despeito do fato de um reborn ocupar um lugar de uma criança real, ou de um idoso, em uma fila de hospital ou consulta médica. A despeito do impacto dos gastos com o bebê em uma economia destruída como é a do Brasil, em que se ostenta até café e chocolate, imagine bonecas hiperrealistas de alto custo e custo de manutenção.
O que me preocupa, e talvez preocupe a muita gente, dentre os quais aqueles que não me cancelarão ou detestarão por ter tido a audácia de falar, é que soa como falta de propósito ter um bebê reborn.
Essas mães ou pais acabam dedicando – é o que parece – suas vidas ao que são, para eles, realmente bebês, assim eles os veem. Carentes de maternidade ou paternidade, mas, na prática, na verdade mais nua e crua, têm bonecos de borracha. É mais fácil de cuidar e ostentar. E podem ser um propósito de vida para quem não o tiver. Cuidar de alguém, ou algo, sentir-se útil, testar as habilidades maternas. Ou apenas seguir uma moda.
Aliás, há adultos de borracha. E já são um mercado lucrativo para pessoas solitárias ou ousadas, em especial na Ásia, faz um bom tempo. Esta semana um perfil chinês me ofereceu um, sob demanda, entrega rápida, fazem sob medida o ente que eu quereria e me satisfaria, minha Alexa desenvolvida. Há quem namore e case com bonecos adultos de borracha. Há até séries e filmes sobre gente que se relaciona emocional e até romanticamente com bonecos ou inteligências artificiais.
Mas tem me assustado o que a IA por vezes vem fazendo – ao mesmo tempo que encanta. As bonecas hiper-realistas são um tipo de IA palpável, no sentido de simulacro do que é humano.
Quando tento entender a mente, a psique, o coração de uma pessoa cujo maior ou ao menos um valoroso propósito de vida é criar um bebê onde não bate um coração, sem sentimentos, sem essência humana, sem essência, há um vácuo. É mais cômodo, verdade. É seguir a onda, e a moda mais que nunca é seguir a moda. Mas é de se questionar o que é reborn e aonde vai dar.
No fim, sempre volto ao looping de tentar me colocar no lugar de uma criança órfã, abandonada, inclusive bebês nas maternidades. Ou crianças sob maus-tratos. Ninguém quer adotá-las, ou cuidá-las. Tratar com humanos e conviver com eles dá trabalho. Muitas pessoas querem simulações, sob medida, e cada vez mais a realidade tem de ser “encomendada” e criada. Ainda fico pensando nos pets que esperam, às vezes, uma vida toda para ter uma família. Uma mamãe, um papai, “maninhos”. Estes seres sentem amor, saudade, têm lembranças, são gratos, leais e… vivos. Têm coração. E até asas de anjo.
Bem, mas eu falava de reborn. Pode ser um indício de coisas (mais) bizarras. Reiterando o fato de muita gente parecer meio perdida, buscando um sentido de vida, um propósito de vida, uma ocupação, um relacionamento “de verdade”, mesmo que não percebam. E que o relacionamento não seja tecnicamente “de verdade” (recíproco e totalmente humano).
Para terminar: tenhamos o cuidado de abordar bebês reborn com crianças e adolescentes. Vida é um fenômeno científico. Aliás, para mim, estar vivo inclui ter inteligência e é coisa de organismos, coisa metafísica para além da matemática. Mas essa é uma discussão longa e árida.
O fato é que um bebê reborn é um invólucro, a priori. Uma miragem, uma crença, um objeto totalmente manipulável. Já há bebês reborn sendo levados a consultas no psiquiatra ou psicólogo. Dança aqui aquela pulga sarnenta atrás da orelha: será que as mães reborn é que não estão precisando de terapia, apoio emocional ou choque de realidade? Será que o que elas buscam não é muito mais que bebês reborn? Ou somente estão desfrutando. Fugindo da realidade, decidindo o que é real. Brincando de bonecas, como faziam antigamente.
Como disse o velho Bukowski, se me lembro algo assim: “Eu sei que não estou enfrentando a realidade; mas quem diabos quer enfrentar a realidade?”. E o Velho Buk declarou: “As relações humanas simplesmente não são duráveis”. No que eu discordo, embora não tenham sido duráveis para o velho ébrio e gênio Buk, ao qual o mundo não pôde se ajustar e vice-versa.
Ele não viveu para ver o que nós, da Era da Inteligência Artificial e do bebê reborn, estamos presenciando. Talvez estejamos ficando cada vez mais despreparados ou preguiçosos para viver relações humanas. Estas que Buk tanto quis e tanto teve. Nenhuma aparentemente serviu. Não por muitas noites cálidas, ou dias de paz. O bebê reborn que muitos cuidam não seria, lá no fundo, algo neles que não foi cuidado, protegido e amado?
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