Ao mesmo tempo em que comemoramos os 80 anos do fim da II Guerra — deflagrada com a aliança entre Hitler e Stálin — em 2025, temos o octogésimo aniversário do lançamento da obra A revolução dos bichos, de George Orwell. Esse livro marcaria para sempre a história da literatura e da política. E a história do próprio Orwell: um socialista convicto que se tornou um anti-socialista de carteirinha, após conhecer a realidade do regime de Stálin e do proletariado, convivendo com as precárias e até desumanas condições da classe trabalhadora.
Para contextualizar, George Orwell nasceu em 25 de junho de 1903, em Motihari, Índia Britânica. Em 1933 lançou seu primeiro livro, Na pior em Paris e Londres. Mas foi com A revolução dos bichos (original Animal Farm ou “Fazenda de animais/Fazenda animal”), oficialmente publicado pela primeira vez em 17 de agosto de 1945, que se tornou um dos mais célebres escritores ingleses do século XX. Sua Revolução é objeto de inúmeros estudos e inspirações até hoje: uma preciosidade atemporal, listada pela revista Time como um dos 100 melhores romances em língua inglesa de todos os tempos.
Este cânone de Orwell é, em suma, uma parábola sobre a Revolução Russa e o stalinismo. Nela, os animais de uma fazenda se rebelam contra os humanos e assumem o poder; porém, acabam sendo, os próprios animais, dominados por regime de tirania liderado pelos porcos. A linguagem é coesa e direta em A revolução dos bichos, que surge como um manual sobre corrupção e falácias ideológicas, projetando a natureza humana política nos animais. Sobretudo, o clássico é uma crítica sardônica ao socialismo.
Orwell foi um socialista ferrenho intelectual — até conhecer o socialismo de perto e na prática, na própria pele, longe das elites luxuosas e filosóficas que se mantinham sobre a escravidão popular. Eram ideologias, ele notou, que levavam à imoralidade, autocracia e multiplicação de injustiças sociais — sempre em nome do povo, como convinha.
George Orwell conhece as minas paupérrimas, sujas e fétidas do socialismo
O socialismo/comunismo — como toda forma de controle social — sempre se susteve em discursos inflamados para massas ingênuas ou cegas por vingança. Gramsci já nos ensinou, com acuidade, como engambelar estrategicamente populações ao engendrar narrativas seletivas nas mídias: se não pela persuasão calcada em falsas premissas, pela força da censura e, enfim, da violência moral e física. Orwell viu esse castelo frágil ruir ao se colocar, pessoalmente, nas realidades do socialismo, notadamente do stalinismo. Estremeceu. Então revoltou-se contra a revolta socialista em si, que lhe ditou a sua Revolução dos bichos.
Antes disso, as incomodações de Orwell em relação ao socialismo foram condensadas em The Road to Wigan Pier, composta de duas metades: a Parte I expõe a vida dos mineiros da classe trabalhadora na Inglaterra; já a Parte II é, direta e veementemente, a condenação do socialismo.
George Orwell, até então um intelectual socialista distante da realidade das massas — nada de novo no socialismo utópico — morou em casas compartilhadas com o proletariado. Coisa que Marx, Lênin, Stálin, Fidel, Che Guevara e outros nunca fizeram. Aquelas residências eram infestadas de mofo, sujeira e ratos, e por vezes não dispunham nem de banheiro interno. Esgotos cobriam as ruas de muitos dos bairros que o escritor conheceu.
Para além disso, o socialista que desceu do pedestal ideológico para andar entre o povo, viu uma endemia de desnutrição crônica: não se podia comprar alimentos saudáveis na miséria: nada além de pão, margarina e batatas — uma dieta semelhante à dos escravos dos campos de concentração de Hitler, financiados e incentivados por Stálin em seu pacto com o Führer e o nazismo (depois o russo viria a ser traído pelo supremo líder nazista, com a invasão súbita da Rússia).
Ambos, Hitler e Stálin, eram “crias” do Partido dos Trabalhadores — Adolf o fundou na Alemanha, e Stálin deu seguimento ao projeto de Lênin e seus comparsas na Europa Oriental, depois de matar a todos eles para se isolar no poder absoluto.
Orwell e o inferno das minas
A jornada de Orwell pela realidade nua e crua se mostrou mais gritante que qualquer ideologia. Ele viu cidadãos definhar, carcomidos por doenças contagiosas e tratados com indignidade pelo “sistema” que devia protegê-los. A insalubridade era geral, com moradias superlotadas e famílias inteiras vivendo em quartos individuais: apenas uma cortina separava-os de outros inquilinos. Mas o pior era o trabalho desse povo amordaçado em si.
Aqueles pobres seres humanos levavam horas para chegar às minas, onde rastejavam como vermes por túneis com menos de um metro de altura. Arrastavam-se por até duas horas, mesmo antes de a jornada de trabalho propriamente dita começar. Já as minas eram congestionadas, superaquecidas e escuras. A insolação era comum, como o sufocamento causado pelo pó de carvão. Os mineiros proletários trabalhavam em posições retorcidas, fetais, sob o risco iminente de desabamentos — frequentes e mortais. Ainda mais insuportável era o barulho daquelas máquinas: carrinhos, perfuratrizes e outros sistemas mecânicos. Enlouquecedor.
Orwell se viu ojerizado por tudo aquilo, e comparou aquelas minas ao inferno retratado por Dante: “Um mundo não feito para seres humanos”. Ademais, viu o pagamento pífio em jornadas excruciantes de seis dias por semana. Isso tudo destruiu a utopia do autor de A revolução dos bichos, justamente com o martelo e a foice da bandeira do comunismo. Eram armas contra as massas, não para defendê-las. O vermelho era suor e sangue, não mera revolução. O autor britânico, que já fazia certa oposição ao socialismo, embora socialista ainda, se pôs então a atacar seus “camaradas” intelectuais. A pobreza do mundo real, controlada por uma elite dourada, sofismática e hipócrita, fez-lhe rever sua própria direção e sua vida inteira.
“Conheci vários socialistas burgueses, ouvi por horas suas tiradas contra sua própria classe, mas nunca, nem uma vez sequer encontrei alguém que tivesse aprendido as maneiras proletárias à mesa”, escreveu um Orwell incrédulo e revoltado. Sua visita às massas deixou claro que os mineiros odiavam os socialistas. Ora, isso era surpreendente: o povo odiava o governo do povo. Socialistas propalavam que queriam ajudar os pobres, mas isso não refletia a realidade. Escancarava, na verdade, uma nefasta hipocrisia e o distanciamento social de uma elite privilegiada que drenava a energia e o dinheiro do povo — sempre em nome do povo.
Orwell se torna anti-socialista
Orwell, inconformado, enfatizou que os socialistas “afirmavam amar os pobres, mas não sabiam nada sobre eles”.
Os socialistas eram a intelectualidade privilegiada das universidades, os filósofos abastados — que muitas vezes enriqueciam às custas da exploração do proletariado, se não estivessem totalmente apartados deles. Era cômodo e terrivelmente utópico, no pior sentido de “utopia”, defender os pobres do alto de um Olimpo vermelho. E a convivência com os mineiros, que mais pareciam bichos que pessoas, despertou a alma do autor de A revolução dos bichos: “É humilhante ver mineiros de carvão trabalhando. Isso levanta dúvidas sobre seu próprio status como uma pessoa ‘intelectual’ e superior… É somente porque os mineiros se esforçam ao máximo que pessoas superiores conseguem permanecer assim”. Falava da elite caviar socialista, de si mesmo.
Assim, chegou ao cerne da questão: o socialismo não era movido pelo amor, como propalavam aos gritos nas ruas os líderes, e os intelectuais nos jornais, mas pelo ressentimento. Uma raiva e ojeriza incrustada dos socialistas que, conforme Orwell, não amavam os pobres: eles odiavam os ricos. Orwell passou a ver indivíduos e sistemas socialistas como arrogantes e alienados: consideravam-se superiores aos miseráveis. E isso era um perigo.
Não era a ineficiência do mercado o perigo maior do socialismo — era o ressentimento. A ideologia do ódio. O socialismo soou a Orwell como mera ira elitista, galvanizada às populações para a satisfação primordial não do povo, mas dos líderes socialistas e da elite intelectual, supostamente libertária, em seus confortáveis castelos de marfim erigidos com muito suor e sangue do povo. Para estes, champanhe, riquezas e ostentação; para a “massa de manobra”, exploração e idealização com o fim de manter essa mesma elite pairando sobre a pobreza, como uma realeza vestida com os melhores e infinitos “trapos” das massas.
Ressentimento, ódio e vingança: venenos para a alma, e a alma do socialismo
Qualquer ideologia fundamentada em ressentimento — uma forma de ódio ou raiva — é desastrosa. Orwell reconheceu essa verdade, que esmagava toda a sua ideologia e a dos muitos ideólogos socialistas, ou simplesmente populistas apelativos. Orwell olhou para o abismo e viu a alma do socialismo: nenhuma mudança implementada por inveja e ira poderia salvar a humanidade, nem mesmo a sociedade. Era, o socialismo em si mesmo, desumano: identificava as injustiças, mas não conseguia e nem se propunha a encontrar soluções eficazes. Na verdade, nutria-se delas.
No entanto, houve um alento nisso tudo para Orwell: ele aprendeu o amor ao próximo nas minas — não nas elites socialistas intelectuais que frequentava. Rastejou com os mineiros entre ratos e outros bichos com toda a humildade que lhe foi possível. Dali emergiu um novo homem. Os trabalhadores dos partidos de trabalhadores sucumbiam diante das elites socialistas. Mais uma vez, uma foice e um martelo não nas mãos do povo, mas do governo, alegadamente, do povo. Foice e martelo para domar, conter, ameaçar e, na pior das hipóteses, iludir. Tudo não passava de ilusão.
Eram disputas de poder político em que os fins justificaram os meios, e nem mesmo os fins prometidos eram atingidos.
Diante disso, George se voltou para a mudança baseada na verdadeira caridade, sem interesses elitistas enganadores. A falha fatal do socialismo — o ressentimento e a ira — estava exposta, como um ente putrefato usando uma coroa que não lhe pertencia. Orwell diferiu a caridade de exploração social com intenções injustas e maldosas; o amor verdadeiro, o companheirismo popular, da mão de ferro dos opressores com seus charutos, seu ouro e suas revoluções social e economicamente desastrosas. O maior desastre era amealhar mentes brilhantes de filósofos, artistas, formadores de opinião sob a tutela de seus “monarcas anti-imperialistas implacáveis”.
Nunca foi amor. Sempre foi autocracia, corrupção e deslealdade intelectual. É o que vemos em A revolução dos bichos, em que suínos imundos tomam o poder em nome do “povo de bichos” para, exatamente, defenestrá-los moral, física e politicamente.
Leia mais: Os 80 anos de A revolução dos bichos: como George Orwell deixou de ser socialista convicto para se tornar um anti-socialistaAcidente Assassinato Belo Horizonte Betim BR-040 BR-251 BR-262 BR-365 BR-381 Contagem Corpo de Bombeiros Crime Cruzeiro Divinópolis Governador Valadares Grande BH Ibirité Ipatinga Itabira João Monlevade Juiz de Fora Lula Minas Gerais Montes Claros Nova Lima Patos de Minas Polícia Civil Polícia Federal Polícia Militar Polícia Militar Rodoviária Polícia Rodoviária Federal Pouso Alegre Previsão do Tempo Ribeirão das Neves Sabará Samu Santa Luzia Sete Lagoas Triângulo Mineiro Tráfico Uberaba Uberlândia Vale do Rio Doce Vespasiano Zona da Mata mineira




