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Por que não fazemos mais poesia na música brasileira?

O Brasil sempre foi um país de pessoas muito criativas e inovadoras, e nunca foi diferente na poesia e na música. Além disso, nossas canções populares tipicamente nacionais — como samba e MPB — não serviam só como entretenimento, eram ecos de filosofia, crônica social e, inclusive, poesia da melhor qualidade. Mas o que acontece nos dias de hoje no Brasil? Ao observarmos o topo das paradas do Spotify em 2025 e 2026, por exemplo, deparamo-nos com algo que parece ter rompido com esse belo legado. Não, não é apenas saudosismo, “no meu tempo era melhor”, rabugice. A análise proposta envolve técnica, emoção, profundidade, qualidade, singularidade… saudade.

E todo mundo tem o direito de sentir saudade — nenhuma é exagerada.

Precisamos lembrar que nossas músicas mais famosas, no Brasil e fora dele, já foram de Tom Jobim e Vinícius de Moraes — o amor é metafísico e contraditório —, Cartola — do alto do morro escrevia versos elegantes e existenciais — e Renato Russo — que atravessava a alma e o espírito sem dó, mas graças a Deus. Mais: a multidão gostava, entendia, cantava, chorava, imortalizou versos como: “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”. “Música velha”, apenas, para muita gente. Ou no mínimo “excêntrica”, talvez “melosa demais”, “difícil de entender”, “chata”.

Sei que cada um tem seu gosto musical, e que a música reflete sua época. Platão e os filósofos greco-romanos sublinham bastante o quanto as canções e sua qualidade eram relevantes para a formação do indivíduo, do cidadão, de um país. De uma alma.

ALGUNS MARCOS HISTÓRICOS

Samba, pagode “das antigas”, MPB e o rock nacional mantiveram o sarrafo lá no alto por muito tempo (não que tenham se extinguido totalmente): além dos músicos já citados, em Caetano Veloso temos o rigor da vanguarda e a capacidade de poetizar o caos; Belchior dissecou a alma do jovem latino-americano com uma crueza literária sem precedentes; Cazuza e Renato Russo deram voz e vez às angústias políticas e afetivas de uma geração, quando a música era um manifesto poético imortal. Que a poesia, muitos não sabem, sobrevoa o tempo.

E o tempo agora no Brasil mudou. Rupturas. Inovações nem tão inventivas assim. É o império do algoritmo e do refrão descartável. A “música de consumo rápido”, como se diz. A “sofrência”. Referências exageradas ao consumo de álcool, ao exagero brega (e muitas vezes pouco verossímil) e a letras apelativas. “Fast food musical.” Até é gostoso, e chega a viciar, mas, no fim… o que nos acrescenta ao coração e à mente?

Sim, sertanejo universitário, funk, MCS e gêneros típicos dos nossos tempos carregam multidões e têm valor inegável como fenômenos de massa e expressão rítmica. Ninguém aqui está “pisoteando” a cultura brasileira. Mas quem, como eu, viveu e/ou aprecia música 1980s, 1990s e os anos 2000, fica uma decepçãozinha (e é claro que há exceções, os poetas nunca morrem nem se deixam morrer): grita um empobrecimento lírico. A metáfora foi substituída pelo literal, que é cada vez mais literal. O mistério, o sutil, o rebuscado, a rima genial foram obliterados. Perdemos a capacidade de dizer até verdades desconfortáveis, e sob sarcasmo destemido: “Vamos festejar a inveja / A intolerância e a incompreensão / Vamos festejar a violência / E esquecer a nossa gente / Que trabalhou honestamente a vida inteira / E agora não tem mais direito a nada”   para cantar descrições anatômicas ou narrativas rasas de balada” (“Perfeição”, Legião Urbana). “A tua piscina tá cheia de ratos, tuas verdades não correspondem aos fatos, o tempo não para” (“O tempo não para“, Cazuza). E, é claro, tantas composições de uma fineza atemporal, sobre a beleza das coisas simples, da ausência, dos sonhos, do amor. O amor, esse sim, é um tema sempre em voga.

NOSSA JUVENTUDE MUDOU?

É injusto encapsular tudo isso no estigma de que “a juventude atual é menos inteligente”. São eles, os jovens, que mais escutam música e que colocam os hits nas paradas. Mas então, o que mudou? Muita, mas muita coisa mudou. É excesso de informação, é briga de rinha de galo para ganhar atenção, são instantes que passam rápido, é a economia da atenção. É a era do TikTok e dos reels, de prender já primeiros seis segundos ou nunca mais, e de preferência nada muito extenso, que tudo corre o tempo todo. Nossas músicas, como nossa gente, está hiperativa.

Poesia demanda tempo, sensibilidade exacerbada, silêncio, contemplação, solitude, uma busca interior. O mercado hoje quer cliques e viralização o mais rápido possível. Dancinha, refrão onomatopeico, do tipo “chiclete”, e tantas coisas que não preenchem a alma, sequer conseguem, mormente, alcançá-la. Mas há de se ter uma alma grande e atenta para acolher a poesia, seja na música, no papel, nas telas, na vida. Estamos mais gélidos?

O SILÊNCIO DA LÍRICA

Tudo bem que você esteja me achando uma dramática implicante. Aliás, nas músicas antigas o pessoal, eu acho, não se preocupava tanto com o que iam pensar — era sua necessidade de se expressar, e de tocar quem ouvia. Não apenas ser ouvido, mas compreendido. Não apenas barulho, mas sentidos. Porém, por enquanto, em minha amargura de geração Millennial, que foi do analógico ao digital — e com o digital também nos trouxe novas possibilidades! —, acho que perdemos um pouco de alma. Não é só na música. Ah, se eu fosse me estender… Quem tem tempo para um café com um velho amigo? E sem ficar rolando a tela do celular (ou do Spotify) durante o encontro? Quem tem tempo para viver e para ouvir, e sem ser fotografado ou filmado o tempo inteiro?

Mas eu falava de poesia e música. E de um tipo de ditadura do fácil. Até porque a tecnologia nos acomodou, também. E é uma discussão sem fim a ética da Inteligência Artificial, do bem e do mal que o progresso nos traz, faca de dois ou mil gumes que sempre é. Mas eu falava de poesia e de flores… Flores de plástico não são como as flores de Hiroshima, ou de Geraldo Vandré. Então hoje eu vou cantar (“Para não dizer que não falei de flores”):

Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção…

A sensibilidade, essa eu nunca vou perder. E há quem nunca a tenha tido, eu sei. O mais bonito da vida está na arte, e a arte não é de se mecanizar — não muito. É coisa de mim para ti, deles para nós, de quem ama para quem ama demais, de quem sofre para quem sofre também, de quem celebra a vida para quem quer viver e fazer acontecer.

A música simplória é só um retrato do Brasil. Muita gente anda passiva, sentada à beira do caminho, ou tentando ser forte apenas em discursos de ódio e rótulos desgastados nas redes. Enquanto o país, bem, anda desmoronando… “Que país é este”, Renato?

Mas Deus me livre falar de política hoje no Brasil — já estamos incendiando, e vigiados por todo lado. Preferem “gritar” a “cantar”.

É a poesia: não é que não saibamos mais fazê-la. E essa é a última coisa que eu gostaria de cantar: precisamos voltar a querer consumir poesia, mesmo em melodias de guitarra, piano, por que não um violino ou uma flauta. E não, eu não sou ingênua: música sempre foi designada às massas, desde o século XVIII, e é coisa de lucro. Só acho que não pode ser apenas o dinheiro, apenas a fama, apenas o fácil. Bem, não para tanta gente.

Eu ouvia muito o poeta Lulu Santos, e hoje quase não o escuto. Aliás, como me afastei da música. Digo, contra a minha vontade, que tenho sede de música e de poesia, toco violão desde a tenra idade, componho músicas quase todas na gaveta. Cantei em corais, musicais. Minha mãe é pianista e cantora de ópera. Gosto até de música sem letras, portanto, aquelas que chamam de “música clássica”.

Estou aqui sentada nas pedras, “o vento vai levando tudo embora, acho que faço isso para esquecer, eu deixo a onda me acertar”, Renato. Sinto um vulto se aproximar. E aí, Lulu? Ele toca meu ombro, vindo lá de 2001, se senta ao meu lado e dedilha a guitarra que brilha de tanta poesia:

Nós somos muitos

Não somos fracos

Somos sozinhos nessa multidão

Nós somos só um coração

Sangrando pelo sonho

De viver”

(“Tudo Azul”, Lulu Santos).

Sangrando pelo sonho de viver. Isso é música.

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