Quase todo mundo conhece o influencer (humorista, e cantor, e ator, etc.) Whindersson Nunes. Há poucos dias, a celebridade revelou ter sido diagnosticada com “superdotação” (altas habilidades). Em uma entrevista a um programa de TV, falou sobre as dificuldades de ter um QI muito acima da média e habilidades especiais: “Sempre me senti diferente”, disse ele. Muitos gostariam de ser ou se sentir superinteligentes, multitalentosos, ou que seus filhos o fossem, todavia poucos sabem que superdotação é um diagnóstico psiquiátrico que traz em seu bojo inúmeros desafios a seus portadores.
Mas o que é superdotação, que inclui altas habilidades? Tecnicamente, para a Psiquiatria, é a condição de indivíduos que apresentam desempenho (bem) acima da média em uma ou mais áreas de conhecimento. Essa característica, embora possa soar como um privilégio, traz vulnerabilidades emocionais significativas.
COMO RECONHECER A SUPERDOTAÇÃO
Quando se fala em “superdotação”, “altas habilidades” ou “genialidade”, pensamos, mormente, em grandes nomes da História: artistas, filósofos, físicos, matemáticos, escritores, etc. É verdade que muitos destes ícones populares eram superinteligentes e visivelmente tinham altas habilidades — Mozart, Einstein, Tesla, Schopenhauer, Van Gogh, Fernando Pessoa e uma longa lista em diversos campos do conhecimento e da arte. Mas o diagnóstico de superdotação pode causar “desajustes” do ente em relação à sociedade e até a estranheza da pessoa superinteligente diante de si mesma.
A superdotação abarca habilidades destacadas em campos do conhecimento como linguagem, raciocínio lógico, criatividade, habilidades artísticas e até mesmo a capacidade de liderar. E mais: o potencial do superdotado não se limita a um QI elevado, bem acima da média das populações — embora um QI acima de 130 seja um dos critérios mais comuns e assertivos para o diagnóstico de superdotação. Para além desta medida de capacidade intelectual, avultam-se características criativas, emocionais e sociais.
Assim, o diagnóstico de superdotação é clínico e psicopedagógico. Necessita de uma avaliação multidisciplinar com psicólogos ou psiquiatras, pedagogos e professores. Resumindo: é complexo e multifacetado.
Porém, há alguns sinais importantes que levam à suspeita da superdotação, sendo que os principais envolvem desenvolvimento precoce (fala, leitura ou raciocínio lógico avançado em comparação ao esperado para a idade). Ainda, é comum que o superdotado demonstre muita curiosidade e faça questionamentos constantes, e tende a possuir maior poder de memória e mais facilidade de aprendizagem.
Outro aspecto é o hiperfoco em temas específicos, interesses muitas vezes não muito atrativos para a maioria, que são objetos de pesquisa obsessiva que pode até gerar descobertas inéditas. E mais: criatividade galvanizada, não apenas no campo artístico; pensamentos divergentes e baixa tolerância à frustração, alto grau de perfeccionismo e empecilhos na socialização — são condições que costumam deflagrar sofrimento mental.
SUPERDOTAÇÃO E TDAH
Muitas vezes se confunde a superdotação com certas condições mentais como TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) ou TEA (Transtorno do Espectro Autista). Isso ocorre notadamente quando a criança apresenta comportamento desafiador, inquietação e isolamento social.
Ser diagnosticado com, ou ter as características de superdotação ou altas habilidades pode ser prejudicial ao indivíduo: este pode se sentir, e de fato ser negligenciado, mal-compreendido ou motivo de chistes e chacotas. Este ser humano então tem a sensação de “um peixe fora d’água”. É que, como mencionamos, a superdotação implica vulnerabilidades emocionais importantes, tais quais sensibilidade emocional ampliada, desconexão social, perfeccionismo exacerbado, frustração ou isolamento escolar, tédio ante a rotina tradicional de ensino e a convivência social. Para além disso, risco maior de quadros como depressão, ansiedade e isolamento social.
É necessário dizer que muitos superdotados podem ser portadores de TDAH e TEA — como muitos autistas de nível 1 de suporte, a exemplo de alguns diagnosticados com Síndrome de Asperger. Seja como for, sem o acompanhamento adequado a pessoa superdotada se torna alvo fácil de um “descompasso” entre sua maturidade emocional e seu potencial cognitivo — o que aponta para sofrimento psíquico considerável.
Cabe aqui um questionamento incômodo: crianças superdotadas têm intelecto, mas teriam maturidade ou condições emocionais para pularem etapas na escola e até em universidades? Ainda mais se considerarmos a aprendizagem um espectro muito maior que a intelectualidade — também social, emocional, pessoal, etc.
ACOLHIMENTO AO SUPERDOTADO COM ALTAS HABILIDADES
Indivíduos de todas as idades e culturas com superdotação — diagnosticada ou não — carecem de suporte eficaz. Sobretudo, o acolhimento surge como principal estratégia diante desta condição, que é parte da identidade, do jeito de ser de alguém, e jamais consiste meramente em rótulo e muito menos um fardo. Trata-se de um entre os muitos casos de neurodiversidade. A condição de ser neurodivergente está relacionada ao funcionamento do cérebro. Devemos reconhecer, respeitar e acolher com empatia.
Não se trata aqui de normalizar forçadamente pessoas neurodivegentes como as superdotadas; senão, é acima de tudo, ajudá-las a conquistar e manter um espaço existencial em que possam se desenvolver com autonomia, pertencimento e saúde emocional. Se afetadas, devem ser tratadas psicologicamente.
É frequente que a superdotação seja percebida, mesmo sem diagnóstico formal, por quem convive com o neurodivergente. De fato, a inteligência não é fácil de ser explicada — e hoje se valoriza muito a inteligência emocional, integrada, adaptativa e resiliente —, mas costumamos reconhecê-la. Não se resume a testes de QI, a um talento ou outro. Todos nós temos talentos. Não se sumariza, tampouco, a “esquisitice”, embora essa possa ser uma face da superdotação, a qual pode chegar ao nível de “gênio” conforme o grau de intelecto e de conhecimento de certas habilidades.
SHELDON COOPER
Um de meus seriados preferidos é “The Big Bang Theory” — um sucesso no mundo inteiro. Humor e… superdotação. Risadas leves, com o pano de fundo dos problemas nos campos profissional, familiar, amoroso e pessoal. São jovens geniais que aprendem a enfrentar o mundo e a vida, e a compreender e serem compreendidos. Convivem com pessiaa de todos os tipos. O “astro” é Sheldon Cooper, um físico que completou seu doutorado aos 14 ou 15 anos. Inclusive, foi lançada a série “O jovem Sheldon”, que retrata o “Einstein” da comédia ainda criança.
É importante perceber que, para além da diversão, seriados como estes expõem a complexidade e as particularidades da superdotação e de altas habilidades — da neurodivergência, e precisamos falar nisso.
Minha mãe foi quem me recomendou “The Big Bang Theory”, dizendo que “nesse seriado tem um cara igual a ti” — era o Sheldon. Às vezes ela, que foi diagnosticada com 140 de QI em teste no psicólogo, me chama de “Sheldooon”, e isso significa coisas boas e ruins, muitas vezes correções. “Isso não é normal, não é assim que as pessoas fazem.”
Não é fácil dominar enxames de pensamentos conflitantes, TDAH, intolerância a frustrações e contrariedades, preconceitos ou mesmo a inveja alheia. “Prego que se destaca, leva martelada.” E principalmente, não é simples se adequar à “vida como ela é”, às “pessoas como elas são (em sua maioria)”, compreender códigos sociais como são ou têm sido. Notar o que quase ninguém nota, pelo intelecto e pela sensibilidade, e ser tachado de louco, idiota ou esquisito por isso, pode ser um estigma extremamente perturbador aos cérebros hiperdesenvolvidos.
Mas tudo bem. Todos nós temos nosso lado luminoso e nosso lado obscuro. Todos nós sofremos, buscamos acolhimento e pertencimento — até os que talvez já tenham desistido. A despeito de toda a incrível diversidade humana, é humano, demasiado humano, ter vulnerabilidades e potencialidades, e precisar lidar com isso.
Maturidade ajuda, o tempo ajuda — mas, afinal, quem é “adulto de verdade”? Inteligência mesmo é se aceitar e, ao mesmo tempo, fazer o possível para ser a melhor versão de si mesmo. Uma versão única, e, atenção, sempre disponível para melhorias ou mudanças conforme o curso da vida. Nada se perde, tudo sempre se transforma (Lavoisier).

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