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Única: a complexidade e o encanto de Clarice Lispector

Por Leila Krüger

Clarice Lispector, nascida Chaya (Haya) Pinkhasovna Lispector em 10 de dezembro de 1920 na Ucrânia, chegou ao Brasil aos 2 meses de idade. Fugia do antissemitismo do entre-guerras, sua família buscava uma vida melhor. Sempre se considerou brasileira, ela disse. Recifense. Carioca. Onipresente. Atemporal. E única. Clarice é e sempre será uma das autoras mais enigmáticas e fascinantes, não apenas do Brasil ou do século XX, mas da História — não temo cair em exagero. Nada, absolutamente nada me encantou mais que a complexidade de Clarice Lispector.

Não; não são e não podem ser apenas as frases espraiadas de Clarice por aí, sem contexto. Há muito mais! É necessário ler as obras, submergir na infinitude de cada uma delas — crônicas, contos, poemas, romances, até mesmo livros infantis. Clarice era — ou melhor, é — toda múltipla, e só pode ser alcançada com um coração aberto e desperto. Uma alma ampla como a sua, que abraça o desconhecido e o insólito. Clarice sempre desafiou convenções. Quando lançou seu primeiro livro, o romance Perto do coração selvagem, criado aos 22 e publicado aos 23 anos de idade, logo após se formar em Direito, o Brasil se perguntou: o que é isso? E mais: que mulher é essa? O espanto se entrelaçou com o enlevo. Nascia, publicamente, Clarice.

UMA ESFINGE: DECIFRA-ME E TE DEVORO

A obra de Clarice é de uma profundidade psicológica que nem todos podem compreender. Clarice nunca foi rasa, mesmo quando escreveu simples. Sua linguagem desafia as convenções da Língua Portuguesa. Os dogmas, o existencialismo, a dor, o prazer — Clarice destrincha sentimentos, é puro, puro coração mesmo quando soa racional. Sim, Clarice é uma Esfinge que inevitavelmente devora, mastiga, rumina a vida. É complexa, como fica claro. E isso não tem nenhum tom negativo nem pode ter no seu caso: é precisamente nessa complexidade que Clarice derrama sobre nós seu maior encanto e o fascínio que nos imanta. Nunca fez questão de ser entendida, nem de se explicar, nem mesmo se considerava uma “escritora profissional”. Chegou a tocar no campo sem fundo da Psicanálise. Clarice foi uma grande analista da alma.

Nossa escritora — que merecia um prêmio Nobel, mas talvez ela não aceitasse, afinal “não era escritora profissional” e “escrevia para se sentir viva” — experimentou os vagalhões da experimentação linguística. Usufruiu de subtextos, silêncios e tramas, muitas vezes, quase inexistentes. Ora, quem era a pontuação para discutir com Clarice? E muito menos as normas, no papel ou fora dele. Clarice foi: “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”. Não se preocupou em se rotular, se nomear, quis permanecer enigma fascinante. Impossível dar às mãos a Clarice, a suas obras, e não entrar com ela “no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta” (A paixão segundo G.H.).

“Pelo menos também usa-me, usa-me pelo menos como túnel escuro – e quando atravessares minha escuridão te encontrarás do outro lado contigo. Não te encontrarás comigo talvez, não sei se atravessarei, mas contigo”, convida Clarice na pele de G.H., que está presente, de alguma forma, com seus olhos de gato e um cigarro entre os dedos, contemplativa e enigma.  

Não, não simplifiquem Clarice recortando suas frases — como talvez eu tenha feito acima. Mas é que já conheço G.H., e como Água viva nunca pôde ser classificado em nenhum gênero. Escutem Clarice, escutem! Deixou-nos uma pista nesta obra citada: “Ouve-me, ouve meu silêncio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa.” Esta outra coisa é o que está no mais incognoscível de cada um de nós. Somos nós mesmos, e que “medo alegre” o de nos descobrirmos.   

“MERGULHE, COMO EU MERGULHEI”

A obra de Clarice Lispector é um mergulho sem garantias, a não ser a da emoção, para quem estiver apto a sentir. Mergulhou e até se afogou em si mesma, e ofereceu-nos a aventura do desconhecido. “Renda-se como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento” (A paixão segundo G.H.). G.H. Veja só, Clarice até o fim insistiu nas abreviações, no enigma, em ser esfinge: assinava C.L, e seu último narrador, do cânone A hora da estrela, é Rodrigo S.M. Nunca se dá a conhecer completamente. Nem se pode.  

CLARICE LISPECTOR É FLUXO — DE ONDE PARA ONDE?

Intimista. Psicológica. Imprevisível. Indomável. Senhora das palavras, curvem-se, sinais e sons. O mundo é um ponto de pergunta, mas a pergunta mais fatal será feita. Clarice empregou o fluxo de consciência como ninguém o fez para tratar do pensamento contínuo e das oscilações internas das personagens. E, se “todo escritor no fundo escreve sobre si mesmo” como no ditado, em seu primogênito, Perto do Coração Selvagem, vemos uma Clarice deixando de ser moça para ser mulher, ou presa entre o passado, o presente e o futuro. A protagonista Joana revela seus conflitos internos entre a infância e o que se pode chamar de vida adulta — porque, com Clarice, nunca se pode realmente “nomear”.

São delicadamente brutais seus elementos autobiográficos. Seu conflito existencial nunca terminou, nem sequer arrefeceu. Suas questões são universais, mas universais no universo de Clarice que é, sempre será, unívoco. A errância. A busca. O mergulho sem fim…

Curvem-se, todos os sentidos. Clarice está escrevendo e falando. “Nasci para escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo” (Jornal do Brasil, 1968).

INEFÁVEL

O termo “inefável” brota do latim infeffabilis, que significa “indizível”. Mas pode descrever o que provoca grande prazer. O desconhecido, mais uma vez. O mistério. A súbita resposta, ainda que incerta e vaticinada. Clarice era “meio bruxa”, dizia quem a conhecia. Transcendental, transpassada de si mesma, um ente. Como rainha, mesclou gêneros literários como quis, e eles agradeceram e nos deixaram satisfeitos, a nós que a recebemos com a alma exposta. Foi irônica, sardônica, simplória, “kitsch”, costurou e remendou com destreza. Ela revisava muito — nunca achava que estava pronto. E nunca estava, não havia começo nem fim, Clarice era apenas trajetória.

Clarice, entre cotidianos e epifanias, nos ofereceu espelhos: descubra-se, devore-se, seja e não-seja: “Despertará e coisas jamais sonhadas te serão reveladas” (Todas as crônicas).

Assim seja.

Além disso, uma última coisa. Clarice Lispector era elegante. Não creio que tenha havido — nem Coco Chanel, que me perdoe — mulher mais fina que Clarice. Em fotos, vídeos, em palavras. Elegantemente, recolheu-se do mundo um dia antes de completar 57 anos, em 9 de dezembro de 1977. Não quis se despedir em seu aniversário. É possível que tenha conversado com a própria Morte. Que, aliás, sempre foi um de seus temas, e sempre unido à vida em um novelo de escuridão e brilho.  

Cazuza disse que Clarice era seu maior ídolo. Não lia a Bíblia Sagrada — e Clarice, judia, sempre falou sobre Deus —, lia A descoberta do mundo. Outro livro que não devemos nos atrever a lhe atribuir um gênero. Perto do coração selvagem, o romance que lançou no mundo e no além-mundo e arrebatou a todos, ainda que muitos se mostrassem cínicos, é e sempre será meu preferido. Termina assim, e não vou encurtar o trecho porque é todo infinito:

“E um dia virá, sim, um dia virá em mim a capacidade tão vermelha e afirmativa quanto clara e suave, um dia o que eu fizer será cegamente seguramente inconscientemente, pisando em mim, na minha verdade, tão integralmente lançada no que fizer que serei incapaz de falar, sobretudo um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! O que eu disser soará fatal e inteiro! Não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões, não haverá espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante: sempre fundido, porque então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei brutal e malfeita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas, ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo.”

Ah, Deus. Eu, de qualquer luta ou descanso, me levantarei forte e bela como um cavalo novo.

Amém.

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