O governo brasileiro iniciou oficialmente o processo de resposta ao tarifaço de 50% imposto pelos Estados Unidos sobre produtos nacionais. A decisão foi autorizada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na quinta-feira (28) e comunicada ao Itamaraty, que acionou a Câmara de Comércio Exterior (Camex), vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, para conduzir os próximos passos.
O aval presidencial ocorre em meio ao endurecimento da política comercial do governo Donald Trump, que ampliou a lista de produtos brasileiros atingidos por sobretaxas em julho, com base na Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana. A medida é considerada pelo Brasil como “injustificável e desproporcional” e já motivou consultas abertas na Organização Mundial do Comércio (OMC), além da contratação de um escritório de advocacia nos EUA para reforçar a defesa jurídica.
Segundo fontes do Itamaraty, os norte-americanos serão oficialmente notificados sobre a decisão ainda nesta sexta-feira (29). A Camex terá até 30 dias para apresentar alternativas de retaliação, em um processo que pode se estender por seis a sete meses.
📊 CNI defende diálogo e envia comitiva a Washington
A decisão de Lula gerou reações imediatas da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que pediu prudência e reforçou a necessidade de diálogo.
Em nota, o presidente da entidade, Ricardo Alban, afirmou que a indústria brasileira “continuará buscando os caminhos do diálogo e da prudência” e que “não é o momento de acionar de fato a lei”.
“Precisamos de todas as formas manter a firme e propositiva relação de mais de 200 anos entre Brasil e Estados Unidos”, disse Alban, destacando que o objetivo é negociar a reversão das tarifas ou ampliar exceções para produtos brasileiros.
Na próxima semana, uma comitiva organizada pela CNI, com mais de 100 líderes empresariais, desembarcará em Washington para encontros com autoridades, empresários e representantes do Congresso americano. O grupo também participará da audiência pública marcada para 3 de setembro sobre a investigação aberta pelo governo Trump.
🎙️ Lula: “Não tenho pressa, mas processo precisa andar”
Apesar da medida, Lula afirmou em entrevista à Rádio Itatiaia que não tem pressa em aplicar a reciprocidade contra os EUA.
“Eu não tenho pressa de fazer qualquer coisa com a reciprocidade contra os Estados Unidos. Tomei a medida porque eu tenho que andar o processo”, disse.
O presidente ressaltou que o Brasil segue aberto à negociação. “Se os norte-americanos estiverem dispostos a negociar, nós estaremos dispostos a negociar 24 horas por dia. Até agora nós não conseguimos falar com ninguém. Então eles não estão dispostos a negociar”, completou.
🌎 Contexto internacional
A escalada de tensões comerciais ocorre em um momento de fragilidade do comércio global, com impacto direto em commodities e manufaturados brasileiros. Os setores mais afetados pela tarifa de 50% incluem aço, alumínio, celulose, calçados e máquinas agrícolas.
Especialistas apontam que a adoção da Lei de Reciprocidade pode levar o Brasil a sobretaxar produtos americanos, como trigo, milho, combustíveis e equipamentos tecnológicos — um movimento que ampliaria o atrito entre os dois países.
A decisão de Lula, embora simbólica, marca uma mudança de tom na diplomacia econômica brasileira, sinalizando disposição para responder de forma firme, mas ainda condicionada à mesa de negociações.
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