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Estamos nos tornando binários?

Por Leila Krüger

O risco de trocarmos a complexidade da alma pela eficiência do código binário da Era Digital é real e sutil, sob gélido império dos zeros e uns. Na verdade, já transpassamos o portal para um tempo ainda mais envolto em simulacros, otimizado e mecanizado, que é a Era da Inteligência Artificial Artificial —  a IA raciocina, aprende com o cérebro humano, mas não sente.

É uma época erigida sobre o alicerce da lógica binária, que deixou de ser apenas uma infraestrutura técnica para se tornar o molde da nossa existência. Seria exagero pensar assim? À medida que a IA e seus simulacros automatizam e padronizam tarefas, gostos e comportamentos, corremos o risco de absorver essa mesma natureza simplista. E nós não somos, ou não deveríamos ser, seres simplórios. E se estivermos em um “afogamento coletivo” na binariedade algorítmica das telas?

A tecnologia binária digital onipresente facilita nossas vidas, até promove conexões e pertencimento, apesar da pandemia de ódio digital; mas estará esvaziando a nossa subjetividade, mesmo nossa própria inteligência biológica, e transformando a multiplicidade humana em uma série de respostas previsíveis e pré-formatadas?

A ESTÉTICA DO “SIM OU NÃO”

Daí que pode ser que estejamos nos inclinando a uma existência humana cada vez mais “sim ou não”; “curtir ou ignorar”; “amar ou odiar”; “ter ou não ter”: “ser ou não ser”. São tons cinzentos que, muitas vezes, definem experiências multicoloridas e cameifiscopicas como são as da natureza humana.

Ao nos moldarmos para sermos lidos por algoritmos, passamos a agir como eles — os elementos robotizados, humanamente “otimizados”. Tornamo-nos menos empáticos e perigosamente pragmáticos, transpondo a lógica de “escalar” e da produtividade para as esferas mais íntimas e amplas da vida, como o amor, a amizade e o lazer.

Coisas se tornam cada vez mais quantificada e competitiva nas nossas vidas pessoal e social, reféns do mundo binário. É como se a nossa validade dependesse de desempenho constante maquinal, ou, mais uma vez, no mínimo simplista e pouco empático.

O CASO DO “HOMEM BICENTENÁRIO”

Neste processo de robotização, automatização e otimização, muitos de nós parecem percorrer o caminho inverso ao do célebre robô Andrew Martin, o protagonista do filme O Homem Bicentenário, de Isaac Asimov. Enquanto o ente mecânico de Asimov ansiava por conquistar a imperfeição, a mortalidade e a complexidade dos sentimentos para se tornar humano, nós parecemos abdicar, mesmo que desapercebidamente, de nossa complexidade multifacetada humana — a própria humanidade e a natureza humana — em favor da eficiência fria e cinza maquinal.

É uma hipótese perturbadora que estejamos trocando o sentir pelo processar e entregando nossa essência (metafísica e carnal) em altares binários metálicos; sua funcionalidade nos torna cada vez mais parecidos com as ferramentas que criamos.

Mas atenção aos desavisados ou simplistas: o objetivo, aqui, não deve ser confundido com um movimento de renegação tecnológica, ou mesmo um saudosismo ingênuo. É inegável que os avanços digitais trouxeram benefícios sem precedentes à Medicina, à Comunicação e ao conhecimento global, inclusive à saúde mental. O ponto crítico não são as ferramentas em si, senão o lugar que permitimos que elas “encaixotem” nossa identidade e, enfim, nossa vida e daqueles que são mais importantes ou amados por nós.

Em suma, o problema emerge quando deixamos de usar a tecnologia para expandir nossas capacidades e passamos a permitir que ela restrinja nossa forma de pensar e agir. Nos “metalize”, e nos “otimize” demais.

O autoconhecimento parece um antídoto eficaz contra essa padronização. A observação honesta e crítica de nossos próprios impulsos e relacionamentos interpessoais nos ajudará a resgatar o que é inerentemente “analógico” em nós: a capacidade de contemplar paradoxos e nuanças, os aspectos espirituais ou transcendentais, os sentimentos e toda a sua riqueza. E, como em um aplicativo ou na binariedade, a correção nao precisa ser imediata — e nem sempre é possível apenas “bloquear” ou “apagar”.

O desafio da modernidade não é impedir a evolução da Inteligência Artificial e da tecnologia — que  sempre causou estranheza ou desconfiança a muitos, e foi dois gumes. É garantir que não nos tornemos seres de inteligência artificialmente limitada, de opções e existências sim-não, isto ou aquilo, agora-nunca. Não podemos, descuidadamente, nos submeter a subprodutos de códigos binários. Somos humanos, e a humanidade é uma dádiva.

Como cantarolou o alegre poeta do Pantanal, da natureza e das delicadezas, Manoel de Barros: “A maior riqueza do homem é a sua incompletude./ Nesse ponto sou abastado./ Palavras que me aceitam como sou — eu não aceito./ Não aguento ser apenas um sujeito que abre/ portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que/ compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, / que aponta lápis, que vê a uva etc. etc./Perdoai.” Perdoai, mas esta é nossa maior riqueza: a incompletude e a complexidade da nossa humanidade, a borboleta colorida e livre antes do avião mecânico: ambos voam, só um tem coração, alma e es.

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