O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu, nesta quarta-feira (28/01), manter a taxa básica de juros (Selic) em 15% ao ano, na primeira reunião de 2026. A decisão já era amplamente esperada pelo mercado financeiro e vinha sendo antecipada por projeções do Boletim Focus, mas voltou a gerar críticas do setor produtivo, especialmente em Minas Gerais.
Com a manutenção, a Selic permanece no maior patamar desde julho de 2006, quando chegou a 15,25% durante o primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Desde setembro de 2024, o Banco Central elevou os juros sete vezes consecutivas e, ao longo de 2025, optou por manter a taxa inalterada nas reuniões de julho, setembro, novembro e dezembro.
BC indica possível início de cortes
Apesar de manter a política monetária restritiva, o Copom sinalizou a possibilidade de iniciar um ciclo de cortes já na próxima reunião, em março, desde que o cenário de inflação mais controlada se confirme.
“O Comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião, porém reforça que manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”, afirmou o BC em nota oficial.
A autoridade monetária destacou ainda que o ritmo e a intensidade dos cortes dependerão da evolução dos indicadores econômicos e da confiança no cumprimento da meta inflacionária no horizonte relevante.
Para o economista-chefe do Banco BMG, Flávio Serrano, a comunicação adotada pelo Copom foi clara e alinhada às expectativas do mercado. Segundo ele, a sinalização resgata o uso do forward guidance, mecanismo em que o BC antecipa seus próximos passos. A instituição projeta um corte de 0,50 ponto percentual em março, o que levaria a Selic para 14,5% ao ano, ainda que com cautela.
Inflação abaixo da meta reforça expectativa
Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o IPCA acumulado em 2025 ficou em 4,26%, abaixo da meta oficial de 4,5% estabelecida pelo Banco Central. Caso a inflação siga dentro do intervalo de tolerância, a tendência é de redução gradual dos juros ao longo de 2026.
Entidades mineiras criticam decisão
Em Minas Gerais, a manutenção da Selic em nível elevado foi recebida com preocupação por representantes da indústria e do comércio. Em nota, a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) afirmou que a decisão tende a prolongar os efeitos negativos sobre a economia, ao restringir investimentos produtivos, elevar custos e comprometer a competitividade da indústria.
“O controle da inflação é fundamental, mas a manutenção da taxa em um nível tão elevado por um período prolongado aprofunda o enfraquecimento da atividade econômica, com reflexos diretos sobre o emprego e a renda”, afirmou a entidade.
O presidente da Fiemg, Flávio Roscoe, defendeu uma política monetária mais equilibrada, capaz de conciliar estabilidade de preços com estímulo ao crescimento econômico. A federação também alertou para os efeitos defasados dos juros elevados e para o risco de impactos desproporcionais sobre o mercado de trabalho.
Já a Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL/BH) classificou a decisão como uma continuidade do processo de “asfixia do setor”, sobretudo devido ao encarecimento do crédito. Para o presidente da entidade, Marcelo de Souza e Silva, os investimentos de médio e longo prazo seguem sem fôlego, apesar da atividade econômica ainda aquecida.
Segundo ele, os segmentos mais afetados são os de bens de consumo duráveis, como eletrodomésticos e eletrônicos, altamente dependentes de financiamento. O dirigente também alertou para sinais de desaceleração no setor de serviços e para o risco de retração mais intensa no varejo caso os juros permaneçam elevados por muito tempo.
Impactos na economia
Especialistas ressaltam que a Selic tem efeito direto sobre as contas públicas, o custo da dívida do governo e o comportamento dos investimentos. Juros elevados favorecem aplicações em renda fixa, mas desestimulam o crédito, o consumo e projetos produtivos. Em sentido contrário, ciclos de queda tendem a estimular a economia real, ainda que de forma gradual.
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