Em uma declaração dada nesta terça-feira (4) em Belém, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) qualificou como “desastrosa” a megaoperação realizada na semana passada nos complexos da Complexo da Penha e da Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro. O chefe do Executivo afirmou à agência Associated Press e à Reuters que houve uma “matança” — e não apenas execução de mandados — e defendeu que legistas da Polícia Federal (PF) sejam incorporados à investigação.
“A decisão do juiz era uma ordem de prisão, não tinha uma ordem de matança, e houve matança. (…) O dado concreto é que a operação, do ponto de vista da quantidade de mortos … as pessoas podem considerar um sucesso. Mas do ponto de vista da ação do Estado, eu acho que ela foi desastrosa”, afirmou o presidente.
Os fatos da operação
Na manhã de 28 de outubro, aproximadamente 2.500 agentes — entre polícias civil, militar e especializados — deflagraram a operação conhecida como Operação Contenção nos dois grandes conjuntos de favelas da Zona Norte do Rio.
Segundo dados oficiais divulgados pelo governo do estado, incluindo estimativas da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, foram mortas pelo menos 117 pessoas suspeitas e quatro policiais, totalizando 121 vítimas.
Na lista divulgada com 115 dos mortos: todos homens; mais de 95% têm vínculo com a facção Comando Vermelho; e cerca de 54% eram de outros estados.
Logo após a operação, a ala de segurança pública do estado do Rio classificou o ato como um duro golpe ao crime organizado. Por outro lado, organizações de direitos humanos falam em “ação com proporção/excesso letal” e apelam por investigação.
Durante sua viagem a Belém, o presidente Lula afirmou que acompanhará de perto a apuração dos fatos e ressaltou:
- Que o mandado era para prisão, não para “matança”.
- Que é necessário “verificar em que condições ela [a operação] se deu”.
- Que gostaria de envolver legistas da PF para garantir independência e transparência na investigação.
O presidente, portanto, coloca sob escrutínio a atuação estadual e chama atenção para eventual excesso de força.
Repercussões políticas e institucionais

As declarações do presidente provocaram reação imediata:
- Parlamentares da oposição acusam Lula de “vitimizar criminosos” e “criticar a polícia” quando o país enfrenta altos índices de homicídios.
- Governador Cláudio Castro (PL-RJ), que chefiou a operação, a defende como “sucesso” e sustenta que os mortos eram criminosos que reagiram à polícia.
- Há um evidente descompasso entre o discurso federal — que pede investigação e cautela — e a estratégia estadual — que exalta a ação punitiva imediata.
- Instituições de direitos humanos e a Defensoria Pública promovem observatório para acompanhar possíveis violações à lei.
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