Há exatamente dez anos, o Brasil assistia, estarrecido, ao rompimento da barragem de Fundão, da mineradora Samarco, controlada pela Vale e pela BHP Billiton. Eram cerca de 16h de 5 de novembro de 2015, quando a estrutura se rompeu no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, e liberou 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério — volume suficiente para encher 22 mil piscinas olímpicas.
A avalanche de lama percorreu mais de 600 quilômetros pela bacia do Rio Doce, até desaguar no mar do Espírito Santo. O rastro de destruição deixou 19 mortos, centenas de famílias desalojadas e um impacto ambiental que, segundo especialistas, ainda não foi reparado.
🌊 A tragédia que mudou o Rio Doce
O rompimento devastou comunidades inteiras, destruiu o distrito de Bento Rodrigues e afetou 35 municípios mineiros, em uma área de quase 18 mil km² — equivalente a todo o estado de Sergipe. Segundo o Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH), mais de 311 mil pessoas foram impactadas direta ou indiretamente.
A lama carregava rejeitos tóxicos e metais pesados, contaminando o leito do Rio Doce e provocando a morte de mais de 11 toneladas de peixes. As perdas atingiram a agricultura, o turismo e o abastecimento de água em dezenas de cidades.
“A fonte de contaminação segue ativa, com acúmulo de metais pesados que foram derramados em 2015”, afirma José Carlos Loss Júnior, presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Doce.
⚖️ Ninguém foi condenado
Nove anos e nove dias após o desastre, em 14 de novembro de 2024, a Justiça Federal absolveu todos os réus — entre eles, as mineradoras Samarco, Vale e BHP Billiton, além de engenheiros e consultores.
A sentença da juíza Patrícia Alencar Teixeira de Carvalho concluiu que “não ficou comprovado o nexo de causalidade entre as condutas e o resultado”.
O Ministério Público Federal recorreu da decisão, que será analisada pelo Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF-6), em Belo Horizonte.
Para o advogado criminalista Paulo Crosara, as defesas “deram uma rasteira na tese acusatória” ao desqualificar testemunhas-chave e questionar a condução do processo.
🏚️ Reconstrução lenta e contestada
Criada em 2016 pelas mineradoras, a Fundação Renova foi encarregada de coordenar a reparação dos danos. Desde então, sua atuação é alvo de críticas e ações judiciais. Moradores e associações acusam a entidade de atrasar indenizações, dividir comunidades e ignorar direitos reconhecidos em acordos.
Somente em 2025, dez anos após a tragédia, as novas comunidades de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo começaram a ser entregues. Ao todo, foram construídos 338 imóveis e 22 equipamentos públicos, como escolas, postos de saúde e praças.
Mas o sentimento de perda permanece.
“Está diferente. A comunidade não é mais unida como antes. A gente perdeu o convívio”, lamenta Darlisa Azevedo, moradora que teve a casa e o antigo Bar da Una reconstruídos.“As casas são boas, mas faltou apoio psicológico. As pessoas perderam a terra, e a terra era parte delas”, reforça o psicanalista René Dentz, que acompanhou vítimas do desastre.
⚰️ As 19 vítimas da lama
Entre os mortos, estavam crianças, trabalhadores e moradores do distrito. Uma das vítimas, Edmirson José Pessoa, permanece desaparecida até hoje.
Entre os nomes estão Emanuely Vitória (5 anos), Thiago Damasceno (7), Maria das Graças Celestino (64) e Antônio Prisco de Souza (73).
💰 Reparação judicial e indenizações
Nesta semana, o Tribunal Regional do Trabalho de Minas Gerais (TRT-MG) manteve a condenação das mineradoras Samarco, BHP Billiton e da Integral Engenharia ao pagamento de R$ 120 mil em indenização por danos morais a um trabalhador terceirizado que sobreviveu ao rompimento.
O motorista estava a cerca de 1 km da barragem no momento do colapso e relatou que presenciou o pânico dos colegas e a destruição do local. A Justiça classificou o caso como “dano moral presumido”, reconhecendo o trauma e a exposição ao risco de morte.
O relator, juiz Leonardo Passos Ferreira, citou falhas graves de monitoramento e destacou o princípio do poluidor-pagador, reforçando o dever das empresas em reparar integralmente os danos humanos e ambientais.
As mineradoras recorreram ao Tribunal Superior do Trabalho (TST).
🌱 O legado que ainda pesa sobre Minas e o Brasil
Uma década depois, o rompimento da barragem de Fundão permanece como símbolo de impunidade e negligência ambiental. Apesar da reconstrução física de Bento Rodrigues, o impacto social e psicológico nas comunidades afetadas ainda ecoa.
“Mariana não quer apenas casas novas, quer justiça e respeito à memória das vidas soterradas pela lama”, resume um trecho de manifesto divulgado por atingidos nesta semana.
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