Manoel de Barros foi e sempre será um poeta ímpar no Brasil, e em toda a eternidade. Barros se fez rio, árvore e bicho no Pantanal, fez mágica do simples, e da simplicidade fez beleza puríssima. Infelizmente, a memória coletiva do nosso país — quem dirá dos outros países — parece ter esquecido o Poeta do Pantanal. Provavelmente nunca realmente se lembrou dele. Manoel, o menino que foi menino até os quase cem anos que viveu, nasceu em Cuiabá, Mato Grosso, em 1916, e desde sempre viu sua vida mesclada à exuberância do bioma pantaneiro. Suas palavras floresceram deste solo, tornaram-se jardins e florestas e águas virgens. Manoel, o de barros e nuvens e asas, não apenas descreveu a natureza, mas nela misturou sua alma que desvelou o invisível do Pantanal e da vida.
Ah, quantos tantos não conhecem Manoel, Manoelzinho, o indiozinho que nasceu da terra e cantou, sussurrou e amou a terra e o céu como o mais exuberante sabiá.
Injustiça. Não é muito lembrado, ele que descobriu que “poesia é voar fora da asa”. Quem mais saberia este sutil segredo imemorial? Penso, com pesar, que a subvalorização — porque não quero dizer “desprezo” — de Manoel de Barros pode ter ocorrido e ainda ocorra justamente por sua singularidade. Outros poetas, vejam, se debruçaram sobre as cidades que cresciam rápidas, barulhentas, progressivas, arranhas-céus; e as angústias urbanas, as questões complexas da sociedade, eram condoreiros de concreto e metal. Manoel de Barros ficou de barro mesmo, amadureceu somente até não deixar de ser criança.
Sua simplicidade, porém — não se enganem! — jamais é sequer sombra de falta de profundidade. Coesão e precisão não denotam coisa rasa, mas é necessário saber usá-las e são poucos os que o fazem, como Hemingway em O velho e o mar e como Manoel com sua poesia. Manoel, em sua obra despretensiosa e inocente até, seus escritos de pés descalços, faz do cotidiano uma epifania. Ensina-nos com ar de sábio a “desver” o que se viu, e a ver melhor o que nunca se notou. Ele mima e busca as coisas miúdas, aquelas que quase ninguém vê ainda que por elas passe os olhos.
Os poemas da nossa criança de chapéu de palha e bigode grisalho, que é sua imagem icônica, e o sorriso de pérola de um sonhador do Pantanal, esses poemas são singelezas raras da vida não-humana, da preciosidade do efêmero ainda que efêmero e até por o ser; sonatas à sabedoria ancestral da terra, do céu, do rio. O poeta nos falava de passarinhos, de rãs, da água e das pedras com a ternura de quem escuta o silêncio absoluto da existência. Em “O apanhador de desperdícios”, pede a nós com gentileza que reconsideremos aquilo que de fato tem valor, e coletaremos com coragem e doçura o que a sociedade descarta: “Não uso a palavra para enfeitar. / Eu uso a palavra para dizer que estou por perto. / A palavra é uma pedra na estrada. / Que a pedra nos ensine a ser pedra.” Não há uma pedra no caminho de Manoel da Barros, há uma pedra voando fora da asa!
Todavia, se falarmos de técnica, a força da poesia de Manoel de Barros habita em sua capacidade de preencher a fronteira entre o real e o onírico. Bem, que fronteira? Houve alguma assim para ele, um cercado tão duro de aço? Subverteram-se a lógica e a gramática, e se criou um léxico pantaneiro-ribeirinho. Simples, sempre simples, mas obra de um alquimista da linguagem: forja sentidos para o que já se julgava ser conhecido plenamente, ou até inexistente. Da obra “Exercícios de ser criança” (nunca se esqueceu de sua própria criança dentro dele, com aquele brilho no olhar de quem acredita mesmo que ninguém mais o faça), nos galanteia com este eco: “O rio que era rio foi pra ser rio. / O rio que era rio não foi pra ser mar. / E o mar que era mar foi pra ser mar. / O mar que era mar não foi pra ser rio.” Ora, há de se ler com o espírito ancestral da terra para entender Manoel de Barros, ou não se leia!
Seja dito que sua poética nos acalma, nos reorganiza, emite frequências de dimensões mais humanas do que as esperadas. Surpreende-nos, vê onde nunca houve. O mundo não está acostumado a toda esta pureza, dada assim de graça e inteira, ainda mais nos dias de hoje. Então nos lembramos de Manoel de Barros e sua poesia da essencialidade, que conecta com a origem, com raízes nas nuvens. No poema “O livro das ignorãças”, eis aí exposta a semente de sua filosofia, a princípio paradoxal, mas na verdade alcançou já as palavras mínimas do essencial: “Serei livre enquanto não for. / Mas serei. / Sem serei serei. / A ser. / E serei.”
Manoel não pode ficar nas sombras. Nunca foi nada de obscuro ou sorumbático ou enfadonho. É que sua voz não grita, não solicita aplausos, não repreende com voracidade como aquilo a que estamos acostumados. Seu gorjeio pantaneiro nos conduz, tomados pela mão — mas apenas se quisermos — à contemplação. De tudo. Do mínimo. Manoel de Barros faz grandioso o que é humilde, e nessa humildade está um mundo completo e vastíssimo, sempre chamando a ser conhecido e reconhecido, chamando em sussurros.
Talvez muita gente no Brasil e neste mundão de Deus — é só um rio! — sejam de urgências e cegueiras itinerantes, assertividades pedantes e, afinal, ceticismo asséptico, o que seca a alma. Podem não estar preparados para ouvir o inaudito e magnífico que assobia Manoel de Barros.
Hoje, apenas por coincidência ou não-coincidência, me lembrei do menino Manoel viveu de meninice viveu e para sempre viverá — ao menos em seus versos. Paira acima das guerras dos homens que fazem guerras, de uma multidão que não quer mais natureza e as coisas simples dos acasos, as coisas que se escondem por sua crudelíssima beleza, e cujas riquezas são dadas apenas aos corações bem límpidos. Manoel de Barros, menino, vem te assentar nesta cadeira da Academia Brasileira de Letras, que fica de frente para o rio, ensina a nós a voar fora da asa sendo pedra!
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