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Estamos com medo de relacionamentos profundos?

Por Leila Krüger

Bem-vindos à Era Digital, à Era da Inteligência Artificial e à Era Líquida. São tempos instáveis de fluidez e descarte, em que a durabilidade dá lugar à instantaneidade. Não é surpresa — mas ainda assim é triste ou preocupante — o fato de que, hoje, o medo de relacionamentos profundos seja uma marca cada vez mais indelével, resistente, amplificada. Um tipo de pandemia silenciosa que nos conduz, de forma generalizada, a uma aparente segurança do “eu”.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman (in memoriam), em sua teoria sobre a Modernidade Líquida e, mais especificamente, o Amor Líquido, radiografa este fenômeno de vulnerabilidade e, ao mesmo tempo, egocentrismo, com profundidade filosófica e empirismo. Para ele, os laços humanos se tornaram fugazes e frágeis, parecidos com “conexões” em rede que podem ser iniciadas ou desfeitas em um clique, em um instante, com pouca ou nenhuma responsabilidade afetiva. O amor, por milênios um porto seguro para a eternidade, uma ode à vida e à nobreza humana, é hoje visto por muitos com a cautela de um investimento de risco, passível de ser cambiado, de repente, por um modelo que prometa mais satisfação e menos incômodo – seguindo a lógica do consumismo objetificante.  

Sim, as pessoas cada vez mais se tornam produtos, têm de ter utilidade umas para as outras. É claro que a natureza humana sempre foi interesseira, com receios e objetivos e, a priori, busca conforto, segurança, aceitação e, ao mesmo tempo, desafios e sucesso pessoal. Mas há aqui um paradoxo, porque nunca antes foi como é agora: mergulhamos nos smartphones, nas fórmulas inatingíveis de “como viver bem”, “como amar e ser amado”, “como se destacar” e, principalmente, como fazer isso e mostrar isso aos outros do jeito mais rápido — e frequentemente raso enraizado em aparências.

Sobre amor e relacionamentos profundos, o paradoxo é evidente: ansiamos por conexões, mas tememos o compromisso que elas demandam. Incomoda-nos mesmo a possibilidade de perder nosso tempo, nosso dinheiro, nossa saúde mental (ou agravar a falta dela), e nos revelar e descobrir o outro, nus e crus, ou algo próximo disso. Relacionamentos profundos vão escavando segredos, hipocrisias, defeitos, e impondo necessidades como compreensão, adaptação, maturidade, renúncias e perdão.

Apesar disso, é bom amar, é bom ter amigos, é bom e saudável se relacionar: até mesmo hormônios “do bem” como a ocitocina são produzidos nessas interações sociais e íntimas que nos dão senso de pertencimento e acolhimento.  

Mas volto ao tecnológico — e primeiro que eu sou uma entusiasta da tecnologia e do progresso, não é minha intenção “quebrar máquinas” como Ned Ludd na Inglaterra da Primeira Revolução Industrial. Porém, como quase tudo na vida, tecnologia é faca de dois gumes. Por exemplo, o smartphone, o verdadeiro “estopim” da Era Digital e, depois, da Era da Inteligência Artificial — aliado, é claro, aos laptops, computadores de mesa e outros dispositivos digitais. Ironicamente, o smartphone se tornou o principal refúgio de nossa ansiedade e angústia na sutil zona limítrofe entre solidão e solitude — a dor do isolamento e a virtude do isolamento, que é se autoconhecer, se autopreservar, ter amor-próprio em primeiro lugar. Enfim, nas telas de vários tamanhos, notadamente dos celulares-computadores, encontramos um mundo particular, customizado e, sobretudo, controlável. Editável. Simulado. Um mundo que nos serve e pode se adaptar totalmente a nós.

Bem, talvez tudo isso seja um tipo de “Caverna de Platão” para nos resguardar do imprevisível do outro; mas, na verdade, isso pode se tornar profundamente alienante. A facilidade de “desconectar”, e mesmo de mudar de um link para outro, de um aplicativo para outro, de uma postagem para outra, apenas rolando a tela, substitui a difícil — como sempre foi na humanidade — arte de conviver.

Uma vida sem atritos ao nosso ego, ou com o mínimo de imposições possível e a ele. Tudo fere, tudo ofende, tudo invade nosso espaço de ser quem somos (e podemos hoje ser tudo como nunca antes pudemos), tanto na vida a dois (ou a três, quatro, cinco… como nos casos de poliamor), como na “penosa” socialização. Estamos desaprendendo o ABC de ser humanos com humanidade?

HUMANOS, DEMASIADO HUMANOS?

Estamos desaprendendo a sofrer, evitando dores de perda, conflitos e vulnerabilidades? O risco de ser ferido já é considerado uma falha, não um processo por vezes necessário e de crescimento. Estamos desaprendendo a nos doar e fazer concessões, sempre ocupados — convenientemente — com nossos universos particulares e hiper-individualizados? Estamos ficando “viciados” em satisfação pessoal, aplausos (expor as partes das nossas vidas que nos convêm, ganhar likes e compartilhamentos) e validação social/amorosa online e offline? É um “eu” que, ainda mutante como são nossos tempos, não deixa muito espaço para partilha e sacrifício mútuo. A tecnologia nos mimou — para o bem e para o mal —, mas ainda somos demasiado humanos, e precisamos ser humanos.

Ah, sobre ser mútuo e relacionamentos “não tóxicos”. É verdade, ninguém merece silêncio, narcisismo, desprezo, enfim, migalhas em uma relação, principalmente amorosa — nem sempre dá para evitar no trabalho, um meio competitivo por natureza. E estamos tendo acesso a informações prolíferas sobre autoestima, amor-próprio e o próprio amor. Até que ponto isso nos superprotege ou nos liberta, é uma linha tênue e muito pessoal.  

Mas vou além, só para perturbar: estamos desaprendendo, e mesmo querendo desaprender a compreender diferenças, enquanto, “oficialmente”, as celebramos? É mais fácil a sintonia imediata. O “outro” que nos “confronta” com suas idiossincrasias tende a ser rapidamente descartado ou deslocado em favor de um novo match, uma nova conexão, um novo link que pareça mais “palatável” aos nossos simulacros e a nossas expectativas idealizadas. É fácil alguém ou algo não ser suficiente, não servir, nos ferir ou ameaçar fazê-lo. Só a ameaça basta.

Tornamo-nos, cada vez mais, escorregadios. Líquidos. Múltiplos. Desvanecentes.

Há uma nuvem escura de medo de amar e de se entregar. O receio da solidez em um mundo líquido, no qual flutuamos em alto-mar, sempre à procura de “terras à vista”; à flor da pele pulula a aversão à ideia de construir algo que exija esforço prolongado, que possa nos aprisionar (no sentido protetor do amor, como Bauman sugere), e que não possa ser facilmente descartado, substituído, esquecido. Soluções fáceis prescritas existem por toda parte. Mesmo a fé se tornou incômoda, ela sempre promete, e queremos garantias.

Como humanidade, estamos — não só de forma negativa, obviamente — sendo atraídos a simulacros. O problema, e é problema sim, é quando esses simulacros nos conduzem a relações superficiais, erigidas nas telas e esvaziadas de, mais uma vez, profundidade. Estamos é mal-acostumados: fugindo do imprevisível e transformador encontro com a realidade do outro, que nos faz deparar com a nossa própria. Daí a pandemia de conexões vazias, superficiais, “postáveis nas redes sociais” e que nos deixam cada vez mais sós.

No fundo, todos nós queremos amar e ser amados, e ser aceitos como somos. Mas isso vem se tornando mais laborioso e dispensável à medida em que temos meios de, como diria o personagem Jaiminho, do Chaves, “evitar a fadiga”. Fadiga mais de coração que de corpo: uma geração que se esforça na academia, mas se esquece de fortalecer a alma.  

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