A humanidade está se tornando cada vez mais apática e fria. Essa é uma afirmação incômoda e, claro, passível de muitas reflexões e até mesmo de discordâncias. Mas, veja: para começar, entramos definitivamente na Era da Inteligência Artificial (IA): estamos imersos e submersos em valores mecanizados: otimização, pressa, minimalismo, simploriedade (para além da simplicidade), superficialidade, veneração daquilo que parece, mas não é (em excesso de filtros e cirurgias plásticas, em estilos de vida e personas nas redes sociais, por exemplo). Um tipo de TDAH de cérebro e de coração. Não nos detemos muito, e por muito tempo, em uma postagem, um texto, uma pessoa, um relacionamento, uma ideia. É claro que estou generalizando, mas igualmente é fato que esse tem sido um fenômeno social e emocional: estamos nos tornando uma geração sem alma?
Por mais manchadas que sejam suas histórias — como a história de qualquer instituição humana, demasiado humana —, religiões, crenças e estamentos sociais têm sido deixadas de lado por muita gente. Hoje, há uma noção de “eu faço o que quero, quando quero, como quero, e dane-se o resto”. Esse é um tipo de liberdade e de comodismo perigoso. Hoje, o amor não tem valido a pena: demanda esforço, dedicação, tempo, partilha, renúncias. Hoje, a ostentação nas redes sociais é essencial. Hoje, estamos o tempo todo fazendo alguma coisa e indo a algum lugar — mesmo sem sair de nossas casas, de nossas camas, de dentro de nós mesmos, do nada.
Isso tudo me conduz aos pensamentos daquele polonês, Bauman, que estudei já na minha primeira graduação, lá pelos anos 2000 — sou velha, embora não tão envelhecida, uma millenial que passou não apenas do século XX para o XXI, mas da geração sem redes sociais e sem smartphone para a Era Digital e, então, a Era da Inteligência Digital. Mas Bauman: Zygmunt Bauman, in memoriam, há vinte anos ou mais já nos falava sobre a Modernidade Líquida, o que muitos nomeiam como Pós-Modernidade (ele mesmo chegou a utilizar esse termo). O filósofo polonês escreveu uma série de obras sobre nossos tempos fluidos, fugazes, instáveis: Amor líquido, Tempos líquidos, Medo líquido, Vigilância líquida, Vida líquida, Nascidos em tempos líquidos, Vida para consumo, Vidas desperdiçadas, Cegueira moral, Estranhos à nossa porta e O mal-estar da Pós-Modernidade, entre outros. Não que eu me identifique com todas as ideias dele, mas há um ponto fulcral, um escopo de desajuste social, emocional e identitário na filosofia baumaniana.
E, ao mesmo tempo em que não quero fazer terra arrasada, nem polemizar para me autopublicizar — como se faz especialmente hoje em dia —, acho sim que existe um botão, se não vermelho ainda, laranja, pressionado. Onde? No sistema de controle das engrenagens do mundo em que vivemos.
São cada vez mais entre o cinza, o concreto, o preto ou o branco, o sim ou o não, e a relativização não como libertação, mas como niilismo ou humanismo exacerbado. Paradoxalmente, o excesso de possibilidades, inclusive de identificação, como na sigla LGBTPIAQN+ (e aumentando). Por um lado, que bom que hoje tenhamos tantos caminhos e, como eu, muita gente (se) questionando, mas…
São tempos de exageros, de alienação e de relativização extrema. Isso em meio a tanto progresso que Chaplin teria de se desdobrar em dez para manter aquele mesmo ritmo do clássico filme “Tempos modernos”. Não estou demonizando a tecnologia — é sempre faca de dois gumes. Todavia, convido-nos a pensar sobre essa sobrecarga humana, para além do corpo, como na época de Chaplin: na mente. Muitos a chamam de overthinking, algo como “excesso de pensamentos/ideias/dúvidas”. Mas o que afinal isso tem a ver com uma sociedade, e os indivíduos que a formam, aparentemente cada vez mais ocos, desarraigados e desalmados?
É que, voltando a Bauman, hoje cada vez mais as coisas e pessoas não parecem suficientes, seguras, duradouras, confiáveis, dignas de atenção. Tudo o que nos tira do conforto pode ser um fardo: somos mimados, materialistas incansáveis, mimizentos como nunca antes (imagina os Mamonas Assassinas cantando hoje? A quantos grupos sociais ofenderiam, e a censura chinesa do Brasil, como reagiria, e o moralismo chato?). Muitos ainda não se aperceberam do que acontece, mas sofrem as inevitáveis consequências, mesmo que não se deem conta disso.
FÓRMULAS PRONTAS INSÍPIDAS
Não é que eu tenha alguma fórmula ou solução ou pensamento prontos para alguém — outra mania minimalista da nossa época: faça isso, não faça aquilo, o amor é isso, o amor não amar é aquilo, somos todos alguma coisa, etc. É apenas um sentimento de esvaziamento em nossos tempos que eu gostaria de (re)transmitir. Uma obliteração e um excesso de sentidos que levam a belicosidade, beligerância, a uma luta de todos contra todos. E é claro que isso de truculência e questionamento humanos sempre houve, somos seres competitivos e discordantes por natureza (desculpe, Marx). Mas, enfim, a sensação é de estarmos, como geração ocidental, flutuando em um barquinho (altamente tecnológico, porém de manejo e rota imprevisíveis) em alto-mar. Ou há muita terra-vista, ou nenhuma…
Nisso tudo, o que julgo mais importante é não perdemos nossos valores e princípios, e quem somos. Sim, ainda existem valores e princípios e quem somos. Embora esse “quem somos” (a coisa dentro de nós que não tem nome, como disse Saramago) possa estar sempre em mudança, adaptando-se ao nosso interior e ao nosso exterior. Muitas vezes precisamos nos reencontrar, nos reajustar, ajustar-nos a nós mesmos e às pessoas com quem convivemos, ao mundo.
E TÁ TUDO BEM?
“E tá tudo bem”, como dizem por aí? Não sei, não.
São tempos difíceis, principalmente no Brasil rachado política, moral e até democraticamente. No planeta em guerras Ocidente-Oriente, políticas, econômicas, sociais, ah, sei, sempre houve, mas hoje é tudo muito rápido e há muita informação por toda parte. Mais uma vez, faca de dois gumes.
São tempos de repensar, mas ao mesmo tempo de agir. São tempos em que não sabemos bem que tempos são esses. “E tá tudo bem”… ou não. Os casos de ansiedade, depressão e suicídio são uma endemia na América Latina. Mau sinal. A corrupção, no governo e no povo, aumenta. Muita gente não se importa — basta a ideologia, a aniquilação do “inimigo”. Consciências cauterizadas. Ora, mas ainda existe certo e errado? Sei que sempre existiu, ao menos a consciência de que essas dualidades existem, ao menos para cada um de nós ou em cada local. São os tais princípios e valores. Que, hoje, parecem-me parcos. Nossas raízes estão no ar, e o ar é ventania.
Como disse a poeta Ana Cristina César: “É sempre mais difícil ancorar um navio no espaço”. Bem, onde estão e para irão nossos “navios”? O que, e quem há dentro deles? Essas são “questões de alma”. Muitos as evitam, são profundíssimas, delicadíssimas, controversas. Outros, conscientes de que no fundo sempre buscamos o invisível e o metafísico, desde os tempos mais imemoriais (desculpem, iluministas), se aventuram a buscar respostas que não se contentem com o grande “NÃO” dos céticos, do asséptico, do que não tem alma. É sempre mais difícil — e ainda assim incrível — ser humano que ser qualquer outra coisa.
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