Houve um tempo em que falávamos do “homem cordial”, termo cunhado pelo historiador e sociólogo brasileiro Sérgio Buarque de Holanda em sua obra Raízes do Brasil, de 1936. Sim, o homem cordial representaria o povo brasileiro, simpático, gentil, talvez sossegado. Mas isso de longe exprime nossa realidade belicosa na terra onde cantava o sabiá e hoje grita — se é que não entrou em extinção. O Brasil oficialmente é o país com maior número de pessoas vítimas de transtornos de ansiedade, conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS). O Brasil hoje é um caos.
Quem assevera o descontrole da ansiedade no Brasil são dados de pesquisa: mais de 9,3% da população brasileira, cerca de 18,6 milhões de pessoas, convivem com a ansiedade patológica (OMS), muito além da ansiedade que é uma emoção normal e até necessária a nós humanos, demasiado humanos. Os motivos de o brasileiro estar adoecendo de expectativa, belicosidade e frustração são vários, que lodaçal!
É claro que tais razões de tanta ansiedade são multifacetadas e intrincadas. Mas não podemos deixar de citar, em primeiro lugar, a instabilidade socioeconômica. Crise econômica, alto índice de desemprego e desigualdade social galvanizam incertezas, insegurança e até animosidade (raiva e ira), que por sua vez “colaboram” para o desenvolvimento de transtornos mentais. A preocupação com o futuro é constante, assim como a falta de recursos e a dificuldade em manter uma vida digna, ou uma boa qualidade de vida, são um pântano voraz em que chafurdam os brasileiros.
Mas não é só. Temos a pressão por produtividade e o ritmo de vida acelerado como pilares da sociedade moderna, e toda essa fugacidade volátil e ao mesmo tempo cada vez mais exigente afeta a saúde mental das pessoas. A cultura do “estar sempre ocupado”, do ser sempre notado, dos simulacros, a competição que nunca foi tão avultada na área profissional. A busca pelo sucesso nas redes sociais, em que pessoal e profissional se confundem, se colidem e atraem haters e vigilantes incessantes. Manter-se conectado (online) o tempo todo é um Vesúvio de prazer e entretenimento, mas, sobretudo, de estresse.
Tudo isso pode levar ao esgotamento mental e à ansiedade exacerbada.
Mas falemos especificamente, no âmbito da endemia de ansiosos no Brasil, da falta de acesso a serviços de saúde mental. A gente sabe que o sistema público de saúde é precário (só não sabe quem nunca frequentou, ou quem tem interesse em dizer o contrário), ao passo que é elevado o custo de terapias e medicamentos. Os impostos pululam como formigas no açúcar em terra brasilis, a tudo devoram. De maneira que o atendimento à saúde — lembre-se, físico e mental estão interconectados e a Ciência sabe disso — é inacessível para a maioria da população. Daí surgem “remendos” mais acessíveis como vício em substâncias químicas, lícitas e ilícitas, criminalidade, doenças psicossomáticas. Berra a ausência de políticas públicas eficazes de prevenção e tratamento de indivíduos como um todo, incluindo seus sofrimentos de ordem emocional.
Para piorar, nossa pátria de Terceiro Mundo avulta estigmas em torno de transtornos mentais, o que dificulta o reconhecimento da necessidade de ajuda profissional e diagnósticos precoces.
Falamos antes em criminalidade, e gostaríamos de ressaltar a sombra ameaçadora da violência urbana e da insegurança pública que geram nos casos de ansiedade no Brasil. Nosso país hoje é uma prisão a céu aberto, um ninho de facções na América Latina, e a impunidade reina com parcimônia desleal. Diariamente somos expostos a notícias de violência, assaltos, estupros, golpes, escândalos de corrupção, e a sensação de vulnerabilidade nos inclina a um estado de alerta permanente. O medo de ser vítima de um crime e a impotência ante a violência social são verdadeiros aliados da ansiedade e de traumas.
São inúmeros fatores interligados a pintar um quadro que, hoje, mais nos lembra “Guernica”, a célebre e espantosa obra de Picasso de 1937. Também vivemos cercados de conflitos globais, como Picasso com sua pintura previu o terror da II Guerra Mundial: em um mundo global, o que acontece no Oriente Médio islâmico e judaico sempre incide no Ocidente cristão ou ateísta, e vice-versa.
De modo que o “meu Brasil brasileiro, meu mulato inzoneiro” de Ary Barroso, em sua feliz toada do início do século XX, hoje nos soa estranhíssima. Hoje vivemos com medo, muitas vezes sem propósitos, sem chão. Daí brota a ansiedade como gigantesca planta carnívora na sociedade brasileira: não apenas floresce no sujeito, mas em grupos sociais e na economia, e com raízes profundíssimas, antigas e rotas.
Ansiedade pode causar doenças físicas graves, até mesmo fatais. Ansiedade suga vida, esperança, produtividade, sonhos. Daí que precisamos de uma união de políticas públicas adequadas, acesso universal à saúde mental e mudanças de valores que priorize o bem-estar e a vida minimamente bem vivida. Mas, se parece utópico o Brasil e seu povo saírem do lodaçal, saibamos que o primeiro passo é reconhecer o que precisa mudar, em nós mesmos e na sociedade. A partir de então, procuraremos soluções, ou ao menos amenizaremos situações dentro do possível. O brasileiro ansioso é o que não desiste nunca, lembram?
Acidente Assassinato Belo Horizonte Betim BR-040 BR-116 BR-251 BR-262 BR-365 BR-381 Contagem Corpo de Bombeiros Crime Cruzeiro Divinópolis Governador Valadares Grande BH Ibirité Ipatinga Itabira João Monlevade Juiz de Fora Lula Minas Gerais Montes Claros Nova Lima Patos de Minas Polícia Civil Polícia Federal Polícia Militar Polícia Militar Rodoviária Polícia Rodoviária Federal Previsão do Tempo Ribeirão das Neves Sabará Samu Santa Luzia Sete Lagoas Triângulo Mineiro Tráfico Uberaba Uberlândia Vale do Rio Doce Vespasiano Zona da Mata mineira





