O Brasil sempre revelou escritores magistrais, desde que era colônia: poetas, cronistas, contistas, romancistas… Na escrita, até hoje abundam talentos e originalidade, em ampla variação de estilos. O brasileiro sabe ser criativo e inventivo. Temos nossa vasta extensão territorial, nossa fascinante diversidade cultural e um número crescente de autores e leitores. Mas isso não impede que a realidade nos grite, longínqua e lamuriosa, e com razão: vivemos um tipo de colonialismo literário.
Ainda somos colônia de grandes potências norte-americanas e europeias, não apenas na literatura, mas em outras formas de arte, como a música e o cinema. Mesmo na América Latina, vários países nos ultrapassam com seus mercados literários; são autores vencedores do prêmio Nobel, cujos nomes são sussurrados com sorrisos em altas rodas da literatura mundial.
Mas o fato é que, em nosso país, a dependência literária e cultural em geral é reflexo de um fulcral e arraigado sentimento generalizado de desconfiança e subestimação em relação ao que é “feito em casa”. Aqui, na terra onde canta o sabiá ou, ao menos, um dia já cantou. Pouco ajuda a constatação de que o brasileiro em média lê pouco, muito pouco, qualquer tipo de literatura — o excesso de telas contribui, mas o desinteresse se sobrepõe. Mais ainda, quando se refere a livros de autores nacionais.
Por exemplo, a Pesquisa Retratos do Brasil, do Instituto Pró-Livro escancara dados alarmantes: mais da metade dos brasileiros não são considerados leitores, ou seja, não leram sequer uma parte de um livro em três meses. Já a quantidade de livros lidos anualmente, pelos poucos daqui que têm o hábito de ler, vem em declínio histórico. Assim, a disputa por atenção e vendas da parte dos autores e das editoras se torna cada vez mais acirrada e, sim, tumultuosa.
A verdade é que esse é um sistema de um engendramento profundo: começa com as grandes editoras, muitas delas multinacionais, preferindo autores gringos consagrados; ou autores nacionais já estabelecidos. Ainda, muitas vezes se cobra caro, muito caro para “se arriscar” a colocar um escritor brasileiro no mercado, se este não for uma celebridade (talvez do YouTube ou do TikTok, ou, com “sorte”, conhecido apenas pelo sucesso de seus escritos, como em plataformas digitais). Melhor sorte têm os escritores brasileiros clássicos, a maioria deles não mais entre nós, como Machado de Assis e Clarice Lispector, que Deus os tenha, e agradecemos a eles e a outros de seu quilate eternamente o seu legado.
Quanto à colônia literária contemporânea no Brasil: essa questão da marginalização do autor, de que “escritor” pode ser uma profissão para muitos, mas muito poucos brasileiros; de que a imensa maioria de livros best sellers, ainda mais se de ficção, são estrangeiros; esse cenário incomoda. Paulo Coelho, por muitos defenestrado — e eu o acho um bom escritor —, é exceção. E, talvez exatamente por se destacar, leve tantas “pedradas”. Ora, ninguém lê tanto assim o que é ruim, e O alquimista, por exemplo, é uma obra-prima.
É como eu disse: os autores gringos sempre tiveram mais respaldo no Brasil. E, em seus próprios países, mesmo em tempos distantes já faziam sucesso. Já na antiga e gélida Rússia, escritores como Gógol, Dostoiévski, Tolstói e outros viviam basicamente de suas obras e eram famosos em toda a Europa, transitando entre nobres e celebridades e relacionando-se com autores proeminentes de sua época. Púshkin, embora sob o agraciamento de uma família nobre desde a Idade Média, frequentava corriqueiramente a corte real, como Lermontov, desde o século XVIII. Eles continuam vendendo e encantando. Apesar de que, hoje, o maior celeiro de literatura e de cultura pop do mundo sejam os Estados Unidos. Lá, ser escritor é sim uma profissão séria, valorizada, auspiciosa, incentivada — já publiquei em uma editora americana que me bancou totalmente, apenas por ter gostado do meu manuscrito The Encounter (Reencontro). Outros pináculos da arte literária atual são o Reino Unido e o Canadá, França, Espanha, Portugal e Austrália. O que ajuda são os sistemas educacionais mais eficientes e abrangentes e a cultura de ler.
Então, a verdade é esta: literatura estrangeira, proveniente de eixos hegemônicos, inclusive de alguns países da América Latina, chega ao Brasil com vantagens estruturais, aporte promocional massivo e maior receptividade do público leitor. Muitas das obras já aportam como best sellers, ou até já estão — como são rápidos! — nas telas em forma de filme ou série. É compreensível, por essas e outras, que as editoras brasileiras tenham mais segurança ao publicar esses títulos gringos, que em geral têm e terão mais espaço nas livrarias, na mídia e nas listas dos mais vendidos.
É um pouco de “complexo de vira-lata” de nós, brasileiros, sim. O que vem de fora é melhor. E, não vamos mentir: mais desenvolvido e próspero.
O AUTOR TUPINIQUIM COLONIAL RENEGADO
Parece-me límpido e incômodo: o autor nacional, principalmente o novato, enfrenta uma batalha desleal com os grandes centros literários mundiais, dos quais somos colônias. Muitos dos escritores tupiniquins, além de boa parte do público leitor da nossa terra, têm uma percepção de que o produto importado é intrinsecamente superior ou mais relevante. Ah, o velho colonialismo: acontece com os livros também. Infelizmente, como já mencionamos, é justificável: a indústria dos grandes mercados é mais avançada, abastada e relevante no planeta. A nosso favor, sempre tivemos e temos, como já se disse, autores nacionais com talento peculiar.
E esforço. Porque precisamos, além de talento, nós, escritores e habitantes do mercado editorial, de força para acabar com os resquícios de uma mentalidade colonial que supervaloriza o externo e, assim, erige um obstáculo real à arte literária brasileira.
As poucas exceções de sucesso nacional contemporâneo na literatura não desfazem o estigma, mas é feliz a constatação de que essas exceções estão aumentando. Estamos tentando, mas é duro.
Os preços dos livros no Brasil, por exemplo, são contraproducentes: principalmente dos nacionais, que costumam contar com menor tiragem impressa e consumo em geral, mesmo em e-books. Vamos combinar: o custo do que lemos nunca foi tão exorbitante por aqui, notadamente nos últimos três anos. Os impostos se multiplicaram, e os livros entraram na roda da inflação e da alta tributação: livros que comprei em 2022 por 19,90, hoje não acho por menos que o dobro. Nossa crise econômica dificulta ainda mais, ela que alcança a tudo com seus tentáculos: hoje, um livro médio impresso, mesmo de autor consagrado e gringo, sai em média por 40 ou até 80 reais, por vezes mais de 100 pratas. Nunca vi coisa igual. E-books? Quase tanto quanto os impressos, na maioria dos casos. São os impostos e a falta de público consumidor. Os clássicos são mais baratos, histórias escritas por gente que está velhinha ou até já se foi — infelizmente —, cânones que estão nos nossos livros de História e de História da Literatura. Estes que já se lê até de graça em versões eletrônicas de domínio público, ou que se acha em qualquer banca de jornal.
Mas não nos distraiamos: é grave que a literatura contemporânea agonize para furar a bolha da desconfiança, da pouca visibilidade e dos custos exorbitantes que o autor e as editoras nacionais têm de assumir. Muitas vezes, os próprios escritores precisam comprar uma boa leva de exemplares — só assim para fechar contrato — e depois dar um jeito de vender, com uma porcentagem pequena de lucro. Daí cresce a autopublicação, que é um dos bons ventos afinal…
BONS VENTOS ÀS “BARCAROLAS” BRASILEIRAS: APARÊNCIA NÃO É CONTEÚDO
Podemos pensar em milhares de escritores nacionais remando contra a maré em suas barcarolas. Belas, afáveis, intrigantes até, mas modestas. Elas navegam ao lado de “Titanics” de grandes mercados do exterior, ou de editoras de ponta no Brasil, confortáveis em ondas de alto investimento em marketing, público leitor mais receptivo e, é verdade, quase sempre boa qualidade, que passa pelo crivo de editores, revisores e designers de capa de primeira linha.
Há destaques, há auspícios, como falamos, mas a maioria dos escritores brasileiros ainda são brasilíndios, nascidos sem voz e sem vez: e, mais uma vez, o problema frequentemente não está na qualidade, mas no sistema que marginaliza. O ciclo vicioso é trucidante: menos investimento das editoras nos novatos leva a menor visibilidade, o que resulta em poucas vendas e reforça a percepção de risco para futuras publicações. Ainda, temos a concorrência entre os próprios autores nacionais — positiva no sentido de que há cada vez mais escritores com temas os mais variados possíveis, e mais engajados; negativa no sentido de que existem “muitos pescadores para poucos peixes”.
E tem aquela coisa bem brasileira, embora fenômeno global porque hoje tudo é globalizado, que me perturba: para ser um escritor validado e vendido no Brasil, você precisa quase sempre ser algo antes. Escritor não é profissão, é incremento. Seja popular e então escreva. Escrever para se tornar popular é mais tortuoso, muito mais. Nem por isso impossível, é claro. Além do que, ser escritor hoje significa ser uma pessoa disposta a se tornar pública, formar opiniões mais do que nunca, adentrar no mundo pop. Não se pode mais fugir para as montanhas como fizeram tantos, como fez J. D. Salinger após o estrondo de O apanhador no campo de centeio.
TERRA À VISTA
Enfim, nem tudo são tempestades: filmes e séries oriundos de livros nacionais se tornam cada vez mais frequentes, e fazem sucesso. É claro, nada comparado ao alcance dos “gringos”, com seu mercado literário experiente, sagaz e voraz.
De toda forma, precisamos elogiar a ascensão das plataformas digitais, o crescimento do mercado da autopublicação e o surgimento de selos editoriais dedicados a vozes nacionais, que até facilitam em termos de custos e investem no autor que ainda não é, mas pode ser, que nada contra a maré. Dessas engrenagens fazem parte a proliferação de agências literárias, cursos literários, agentes literários e até espaço nas mídias. Redes sociais são canais potentes, e muito utilizados por autores e leitores brasileiros; o que demonstra o esforço que fazem para serem notados, e muitas vezes o são.
Escritores nacionais contemporâneos têm conquistado leitores e prêmios importantes, indicando uma (re)valorização gradual da literatura nacional. Somos brasilíndios ainda em pleno século XXI, mas estamos evoluindo, estamos nos independizando e, ao mesmo tempo, nos expandindo para o mundo. Ora, os velhos continentes precisam conhecer nossos escritores tão diversos, criativos e valorosos, e não apenas em livros religiosos e de autoajuda (alguns deles, é verdade, de muita qualidade, não os desprezemos, até porque espiritualidade e saúde mental estão em alta).
O QUE FAZER?
Continuar. As barcarolas literárias brasileiras navegam em águas turbulentas ao lado de transatlânticos, mas o momento ainda é propício para avançar em direção a novos mercados, à valorização e ao reconhecimento, existe “terra à vista”.
Muito embora a superação total do colonialismo literário exija mais que esforços isolados, senão colaborações conjuntas da sociedade: as editoras precisam equilibrar seus investimentos, batalhar como os autores, “dar a cara a tapa” em favor de gente promissora e que não desiste, apostar no incerto. Já a mídia pode conceder mais aos lançamentos nacionais. E, crucialmente, aos leitores se lhes recomenda romper o preconceito e abraçar formas de literatura que o representem, em seu próprio idioma e embebidos na riquíssima cultura e história do Brasil tão fascinante.
Porque não pense que os livros escapam da história e da cultura em que seus autores estão inseridos, ainda que em mundos imaginários: um bom livro sempre contém muita verdade interior. Assim me disse o celebrado — mas que devia ser ainda mais lembrado — Ivan Junqueira (in memoriam), quando membro da Academia Brasileira de Letras, sobre meu romance Reencontro. E os leitores só podem sentir o coração se inclinar, mesmo com relutância, à sua pátria, seu lar, seu cotidiano.
Para encerrar: nós, autores, precisamos do equilíbrio entre o talento e o marketing; e, como leitores que todos nós escritores somos, ou deveríamos ser, deixar despontar a coragem e a paixão curiosa e simples pelos livros nacionais. Se nós, escritores brasileiros, não lemos nossos compatriotas, quem lerá? E não somente os clássicos, repetindo. Quanto àqueles que apenas leem mas (ainda) não escrevem, acreditem em nossas histórias. Quem sabe quem de nós conquistará o primeiro Nobel de Literatura do Brasil — que eu já teria dado a Machado de Assis e Clarice Lispector, por exemplo? Lá de cima, estes e muitos outros velam por nós aqui embaixo, nós que velamos pela literatura condoreira do Brasil.
Não desistam de escrever, não desistam de ler, não desistam de ser brasileiros, por mais difícil que possa parecer. E, a gente sabe, muitas vezes parece. A vida não é fácil, mas a escrita e a leitura nos ensinam a viver.
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