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O isolamento e o egocentrismo vêm nos adoecendo  

POR LEILA KRÜGER

Os tempos já foram mais difíceis para nós humanos em nossas sociedades, em muitos sentidos. Ainda assim, um fenômeno perturbador tem sido notório, intrínseco ao desenvolvimento tecnológico: hoje, a maioria de nós possui acesso a um estilo de vida rodeado de confortos, liberdades individuais e praticidades nunca antes vistas; mas, ao mesmo tempo, submergem em alienação social, materialismo exacerbado e individualismo. É um paradoxo nas sociedades ocidentais, o de viver com tantas possibilidades de relacionamentos e de companhias de todos os tipos e lugares, e no entanto pender cada vez mais para o isolamento social e a dependência de objetos. Dentre estes, o smartphone certamente detém o monopólio da atenção.

Não é que nos faltem interações — estas são algo germinal, se comparadas a verdadeiras relações humanas e tudo o que podem envolver e significar. Ante ao excesso de informações e de possibilidades, a tendência é mesmo reagir e agir, porém, para muitos, bem mais nas telas que no “mundo real”.

Quer dizer que, por exemplo, podemos ser muito ativos nas redes sociais, nos jogos coletivos online (um perigo para crianças, face aos pedófilos aproveitadores nesses simulacros!) e até no ensino e aprendizagem EaD que promovem a cooperação entre os alunos e entre alunos e professores. Sim, é a revolução das interações, porém, na realidade o que se vê são milhares de indivíduos aprisionados (ou autopreservados) em bolhas de isolamento, onde ligações pessoais e sociais profundas, emocional e fisicamente, se fazem commodities cada vez mais raras.

Um aspecto a sublinhar é que sim, o isolamento forçado da pandemia de Covid-19 “colaborou” para a galvanização do isolamento pessoal e social das pessoas no mundo: não nos fez mais unidos e mais humanitários, como se previa, mas nos preparou para um modelo de vida focado na independência (desapego do outro) e no individualismo.

Assim, o consumismo e a autocentralidade que imperam podem se mostrar sufocantes. Elas têm tido um custo invisível, mas aterrador que é o enfraquecimento de laços interpessoais e comunitários. Do que resultam: baixa tolerância (especialmente a frustrações), pouca resiliência, mais frieza ou indiferença, menor disponibilidade emocional e sentimental dentro de nossos casulos. Será que nos “treinaram” para chegar aqui?

Fato é que nossos relacionamentos humanos vão se tornando mais superficiais, ainda que com interações superabundantes, notadamente pela via tecnológica. Estamos mais exigentes, respeitando sim nossa autoestima e nosso bem-estar, só que às vezes um tanto quanto inacessíveis. Lá, onde precisamos ser acessados e acessar. Daí desponta o comodismo e a introspecção emocional: encontros espontâneos e mais “plenos” parecem incômodos ou pouco desejáveis: olho no olho, face a face, amigos para desabafar, um tempo para um café com alguém especial, abraços, toques, etc. Muitos de nós preferimos mostrar recortes de nossas vidas em vídeos, fotos e descrições que soam como rótulos exíguos mas socialmente aceitáveis.

E tudo se desvela em pragmatismo, à maneira de simulacros de pessoas e grupos sociais destinados a plateias e à aprovação do outro. Um palco, não uma roda de conversa.

Sair de casa já não é tão interessante, e é melhor e mais “seguro” trabalhar em home office. Deslocamentos, ainda mais nas metrópoles, são cada vez mais indesejáveis — até porque de fato há o caos do trânsito, a perda de tempo, as incomodações de ir a algum lugar distante, o barulho, a agitação, e a muitos ainda é mais desafiador pegar lotação, às vezes vários, e não dispor do conforto de um automóvel. Mas a situação pode ir além: os humanos de carne e osso parecem-nos, muita das vezes, insuportáveis ou banais; exigem muito de nossa “bateria social”.

Melhores são os streamings e memes nas telas, e observar ou até venerar pessoas que viralizam nas redes sociais, e enfim nosso conforto, materialismo, individualismo e autoproteção. Viver “lá fora” são eventos a serem compartilhados como espetáculos nas redes, desde ir à academia até comer, viajar, encontrar alguém, participar de um compromisso, tudo é conteúdo “postável” e “potável” para a inerme validação social de receber likes e comentários em vidas editadas.

Quanto à nossa vida realmente privada, que incômodo seria revelá-la, para muitos de nós! Mesmo quem somos de fato. Até porque as redes sociais estão repletas de julgamento, ódio, inveja, competição, aparências inócuas. Não é por acaso e nem por mero capricho a sociedade do protecionismo individual, do individualismo, do conforto dos recortes e das facilidades da rotina hermética.

E, se você pensa que é exagero, vamos à ciência, a menina dos olhos dos céticos. Um estudo recente da Universidade Harvard, publicado no livro “The Good Life”, sugere que a solidão se tornou uma epidemia global, afetando milhões de pessoas e corroendo não apenas a saúde mental, mas também a física — uma depende da outra. A pesquisa, que acompanhou mais de 2000 voluntários por quase 80 anos, concluiu que a qualidade dos relacionamentos é o fator mais importante para uma vida longa, saudável e feliz. Por outro lado, um relatório do Pew Research Center expôs que o número de americanos que não têm amigos próximos triplicou desde 1990.

Além disso, a ciência, como eu e você, pode testificar o aumento alarmante dos casos de ansiedade, depressão e outras desordens mentais — ou simplesmente a falta de propósitos de vida. As sociedades nunca antes comportaram tantas pessoas e tantas diferenças, tanta liberdade pessoal e tamanhas facilidades de comunicação. Todavia, estamos escolhendo o isolamento — egocentrismo, autoproteção, comodismo, hábito, vício. E também é verdade que há a impressão de que estamos nos tornando mais hostis.  

Mas o mais grave é que a propensão ao isolamento pessoal e ao egocentrismo não se trata meramente de um problema social: é sobretudo uma pandemia de saúde pública.

Já falamos no disparo de transtornos como ansiedade, depressão e TDAH, dos quais resultam consultórios cada vez mais lotados, remédios consumidos como água, sensação de vazio e de falta de sentido multiplicadas no âmbito social. São tempos difíceis, mais uma vez: competitividade efervescente, crises existenciais ante o decaimento de estruturas tradicionais, realocação de profissões, da aprendizagem e do ensino, de modos de vida na Era Digital e da Inteligência Artificial. Há de se adaptar ou sucumbir, assim caminha a humanidade e sempre caminhou. Agora, com tantas coisas ao nosso redor, está mais difícil saber o que pensar, o que escolher e o que fazer — ou se fazer ou não.

Sobre o fenômeno do isolamento físico e mental como sintoma ou causa, essa tendência vem colocando a saúde humana em risco. É fato e não especulação. A Agência de Saúde Pública dos Estados Unidos detectou que a solidão crônica aumenta o risco de doenças cardiovasculares em 29% das pessoas, e de acidente vascular cerebral, em 32%. São inúmeros os estudos, e cada vez mais abundantes: estamos começando a entender o que há dentro do “olho do furacão” digital.

Seja como for, a lógica da vida não mudou: mente sã em corpo são e vice-versa.

Corpo e mente podem ser afetados pela debilidade de conexões mais intensas e literalmente físicas. É comprovado que precisamos de luz solar, abraços, toques e convívios próximos — se não maléficos, é claro — para a produção de hormônios como serotonina, dopamina, endorfina e ocitocina, o “combo da felicidade”. Mesmo o contato com a natureza nos é vital, embora nas cidades e em meio a tantas tecnologias venha sendo obliterado por “árvores de metal” e “jardins de concreto”. Muros dentro de nós próprios: “Cada um de nós imerso em sua própria arrogância esperando por um pouco de atenção”, cantou Renato Russo lá nos anos 1990, um visionário

Mas peraí. Longe de mim ser uma luddita, uma paranoica ou crítica ferrenha da tecnologia e do desenvolvimento, uma retrógrada que murmura “no meu tempo era diferente”. Até porque a tecnologia e o desenvolvimento sempre ajudam — a despeito de serem facas de dois gumes, cujos cabos nós, humanos, temos a responsabilidade ética de segurar. O escopo aqui é de nos alertar, eu e você e todos nós, sobre as armadilhas urbanas e tecnológicas que redundam em isolamento, egocentrismo e, enfim, adoecimento.

Então, repensemos algumas coisas enquanto é tempo. Nossas prioridades, nossos laços humanos e a amplitude deles, o modo de vida que estamos construindo. O governo pode auxiliar: cidades podem disponibilizar mais espaços de convivência e espaços comunitários, promoção do uso mais eficaz, mais protegido e ao mesmo tempo mais sociável do transporte público; incentivo à criação de grupos com similaridades e também diversidades acolhidas. Maneiras de reencontrar nossos verdadeiros amigos, familiares, os que nos são queridos, enfim, e de nos reencontrarmos: nossos propósitos, nossas necessidades afetivas, nossas liberdade de enfrentar o mundo e as pessoas e a premência de criar laços.

Sim, laços. A verdadeira prosperidade e a satisfação de uma pessoa e de uma sociedade não se medem substancialmente por sua riqueza ou seu progresso, tampouco por suas posses. É, como sempre foi, pela força e amparo dos laços sociais que se é mais ou menos feliz, ou ao menos mais ou menos equilibrado — com seletividade, é claro, porque precisamos saber escolher, quando podemos fazê-lo, quem deve ficar perto e quem deve ficar longe.

Viver de fato e de direito é alcançar corações, sensações, peles, é utilizar nossos cinco ou talvez seis sentidos, é também se doar, é sair da ilha. Não se afastar a ponto de, mesmo sem perceber, renegar aos que se ama e até quem se é no âmago. Porque sempre há um âmago a se descobrir ou ao qual voltar. “Não sei se a vida é curta ou longa demais pra nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas” — tem razão, Cora Coralina, tem razão.

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